Lembro de uma antiga professora da faculdade de História ao começar essa crônica. Ela dizia o quanto é difícil para um historiador pensar a respeito dos fatos que acontecem na sua frente, no presente. A dificuldade de analisar o evento na hora em que ele acontece, sem distanciamento. E que ser um profissional do contemporâneo é uma tarefa para poucos. De fato, minha professora tinha razão. Como é difícil falar sobre o aqui e agora. Experimentei essa sensação ao pensar sobre os 7 a 1 que o Brasil levou lá em 2014. Agora, com algo muito maior e mais sério – a pandemia do coronavírus, a folha em branco esperando minhas letras, palavras, frases assusta e entorpece…

          Sei que para mim, 13 de março de 2020, uma sexta-feira 13, foi o ponto de partida. A partir desse dia, todas as minhas rotinas seriam alteradas assim como para quase todos que vivem na cidade de São Paulo. A covid-19 ainda parecia algo distante, não de fato um problema, com muita gente dizendo que era apenas “uma gripezinha”. No sábado 14, estava com a agenda cheia. Fotografaria dois jogos do NBB, a Liga Nacional de Basquete, e a abertura do Paulista de Rugby. Aquele tipo de correria que eu adoro e que me faz tão bem.

Como sempre, providenciei os credenciamentos, mas desta vez houve respostas negativas no que se referia ao basquete. A liga tinha decidido que só entrariam nas quadras, as equipes, árbitros e aqueles que seriam imprescindíveis… bom, eu não era, era apenas um fotógrafo. Tenho que confessar que fiquei puto, queria trabalhar, mas ok, restava o rugby. Até o final da tarde da sexta 13, tudo certo para a abertura do Campeonato Paulista. Mas as notícias não paravam de chegar, aulas suspensas, quarentena à vista, casos sendo divulgados e, finalmente, a Federação Paulista de Rugby adia o início de seu campeonato. Tudo, de fato, muito sensato.

          Passada a minha ânsia de cobrir esses eventos, eu não podia negar que colocar os atletas em risco não fazia sentido algum… e aí a palavra empatia surgia pela primeira vez com força na minha cabeça.

Na segunda-feira seguinte, na escola em que trabalho, começaria a segunda semana de provas mensais. Logo, ficou evidente que nada seria daquilo que fora proposto antes. Um aluno numa sala, cinco em outra e tantas salas vazias. As famílias aceitavam as recomendações do Governo Estadual e da diretora de minha escola de ficar em casa. Naquele momento, trabalharíamos com vídeo-aulas e com o que fosse possível. Assim, ficamos mais alguns dias na escola, até que a quarentena se estabeleceu a partir de 23 de março. É preciso confessar que a despedida dos colegas na sexta 20, sem se tocar, beijar, abraçar, e o silêncio da escola vazia me causaram uma tristeza profunda. O coração que não dói, doeu apertado… Nada seria como antes…

          Mais de cem dias se passaram…

          E esse texto levou todo esse tempo para ser concluído. Não sei o que me aconteceu. Bom, reli meu diário durante os meses de abril e maio e percebi que havia uma constante: uma extrema sensação de vazio acompanhada de um coração acelerado. Provavelmente, se eu tivesse ido ao médico, teria sabido que tive algumas crises de ansiedade ou algo do tipo.

O fato é que a pandemia no Brasil realçou todas as nossas diferenças como nação. E isso não foi uma coisa boa. Nesse tempo todo, foram três ministros da saúde, um ministro da justiça metido a herói que caiu, uma reunião ministerial assombrosa, fake news por todos os lados, um ministro da educação que se foi pelas portas do fundo, um presidente isolado e cada vez mais radical… e os números de mortos só aumentam no país. Quando você estiver lendo esse texto, já serão mais de setenta mil mortes. Estamos atrás apenas dos Estados Unidos nessa matemática macabra.

As férias escolares de julho foram antecipadas para abril. Foram 30 dias de inquietação no meu peito. De verdade, não lembro de ter passado um dia sequer bem. Estava irritado e qualquer coisinha (além do covid-19 e do Bolsonaro) me tirava do prumo. Passava mal mesmo e quando a crise me assolava à noite em minha cama, eram horas sem dormir e medos infantis me assombravam no escuro da noite. Tantas incertezas e ainda havia o medo de pegar o tal do vírus e passar pra minha mãe que tem mais de 70.

          O pior momento, ao menos pra mim, passou quando voltei às aulas com a novidade de que seriam virtuais. Eu na minha casa e meus alunos nas suas. Benefícios da tecnologia burguesa enquanto milhões penam no Brasil para conseguir uma cesta básica, imagina uma internet decente para ter aula. Mas como digo para meus alunos, tivemos sorte, somos privilegiados (e claro que isso não é justo porque só aumenta o fosso da educação no Brasil, deixando evidente a distância entre ricos e pobres).

No entanto, tudo pode piorar e o fascismo tomou conta das ruas brasileiras enquanto as pessoas sensatas ficavam em casa em razão do isolamento social. Por semanas, vimos cenas absurdas dos seguidores de Bolsonaro com suas camisas da seleção brasileira e discursos de ódio. Meninos e meninas negras foram mortos pelo Estado. A polarização nunca esteve tão evidente e a violência tão em alta.

          Difícil…

          Junho chegou e começou com a torcida do Corinthians na Avenida Paulista impedindo uma manifestação fascista. Eram poucos de camisa preta e branca, o suficiente porém para brecar a onda de terror. No domingo seguinte, o número cresceu e outras torcidas se juntaram a um belo momento que gritava DEMOCRACIA. Não posso mentir que ao ver as fotos dessas moças e moços na rua chorei de alegria. Havia salvação dessa escuridão toda. Havia gente sim do lado certo.

No dia sete de junho, com a minha câmera – depois de mais de três meses –  e máscara na cara estava no Largo da Batata, zona oeste de São Paulo, registrando a maior manifestação desse período que defendia tudo aquilo que deveria ser defendido.

          A luta continua…

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