Gravidez, maternidade e basquete: a conciliação do esporte com o sonho de ser mãe

Existem muitas definições sobre o que é ser mãe. Dentre elas, podemos citar o carinho, o amor, a dedicação, o respeito, a entrega, o abdicar, entre outros. Apesar dos inúmeros adjetivos, uma coisa é certa, não é uma tarefa fácil, mas recompensadora. Ter um filho é um passo primordial e esperado por muitas mulheres. 

E o retrato da mãe moderna é, sem dúvida, o da mulher multitarefas. Cuidar da casa, do trabalho, levar os filhos para a escola, estudar, praticar esportes, e se cuidar são só algumas das tarefas que elas precisam conciliar com a maternidade. 

Agora, você já imaginou como é ser uma mãe-atleta?

Para as mulheres atletas, a decisão pode ser mais complexa. Ser uma esportista de elite presume estar em excelente forma física através de treinos diários, possuir concentração e disposição para viajar às competições. Para ser uma atleta campeã precisa abrir mão de momentos com a família, amigos e vida social; tudo por um sonho.

Algumas mulheres atletas costumam adiar a decisão de ter filhos porque a carreira acaba exigindo uma dedicação total às competições. Não há contraindicação que impeça às atletas de prosseguir com a gestação. Mas, durante a gravidez, treinos e algumas performances devem se adaptar à nova situação. O basquete é um esporte de muito contato, e certos contatos podem oferecer risco. Todo cuidado é primordial.” – explica a médica Marise Capelli, especialista em ginecologia do esporte.

Tais situações poderiam servir como uma bela desculpa para não ter filhos. Mas, várias atletas ao redor do mundo provam que é possível conciliar, devidamente, estas funções. A maternidade para atletas sempre foi um dos principais pontos para interrupções em carreiras de sucesso. Hoje, muitas mães-atletas conseguem dar a volta por cima e retornar ao alto nível.

Após o período gestacional, a atleta pode voltar no nível ou melhor do que antes da gestação. O tempo de retorno aos treinos varia de acordo com cada atleta, sem nenhum tipo de restrição às atividades físicas – finaliza a médica.

Manter o alto nível atlético após a maternidade só reforça o quanto a mulher é forte, transitando das atribuições maternais aos treinos e competições. Para celebrar o Dia das Mães, o Área Restritiva conversou com as atletas e mamães da equipe de basquete do Corinthians 3×3, Julia Carvalho e Vanessa “Sassá”.

Julia, destaque de 2019 da Liga ANB 3×3, e umas das principais jogadoras brasileiras da modalidade, teve uma grande campanha na última temporada: 137 Pontos com 7 torneios oficiais da ANB 3×3 disputados. Após deixar as quadras do basquete convencional para se dedicar ao 3×3, Julia caminhou para um novo desafio: a maternidade.

Sassá foi campeã da primeira edição da Liga de Basquete Feminino 2010/2011, pela equipe do Santo André. Atualmente, veste a camisa do Corinthians 3×3 e é detentora de 7 torneios oficiais da Liga ANB 3×3 disputados na última temporada. Além de defender a equipe alvinegra, também joga pelo Novo Basquete Ponta Grossa (NBPG), que conquistou o último campeonato paranaense de forma invicta.

As companheiras de equipe tem a maternidade como outro assunto em comum. Sassá é a mamãe da Anallu, de dois anos; enquanto  Julia aguardava ansiosamente o nascimento da Bela, com 37 semanas, até o fechamento da matéria. Bela veio ao mundo ontem (08). Confira abaixo à entrevista exclusiva com as mamães atletas:

Na foto, o time de Basquete 3x3 do Corinthians com as medalhas de campeã nas mãos, na foto estão 5 atletas entre elas as mães Julia e Sassa. Na edição do torneio que jogaram a Julia não jogou mas acompanhou a equipe, as meninas estão colocando as medalhas de campeã na barriga da Julia e posando para foto. Sim! No Basquete é possível ser mulher, atleta e mãe - Área Restritiva
Foto: Arquivo Pessoal

Júlia Carvalho – mamãe da Bela

Área Restritiva: Como foi a descoberta da gravidez? Qual a primeira coisa que fez ao descobrir?

Julia: Eu estava trabalhando e passando muito mal, fui ao médico e fiz exame de sangue e aí veio a notícia. A primeira coisa que fiz foi chorar muito, fiquei perdida e esperei o Luca chegar do trabalho e contei pra ele.

Área Restritiva: Ser mãe era um sonho? 

Julia; Sim, sempre foi. Mas aconteceu antes do planejado.

Área Restritiva: Quando divulgou que estava grávida, qual foi a reação da família, e de suas companheiras de equipe?

Julia: Todos ficaram muito felizes, família já nos cobrava muito (risos). As companheiras de time e os torcedores gostaram muito também.

Área Restritiva: E como foi a reação do Luca quando soube?

Julia: Ficou em choque, demorou muito tempo para cair a ficha de nós dois. Mas hoje estamos muito felizes e ansiosos para a chegada da Bela. Ele vai ser um paizão, tenho certeza.

Área Restritiva: Como deu-se sua rotina de treinos e jogos, conseguiu levar até quando as atividades? 

Julia: Não consegui manter nada, passei muito mal nos quatro primeiros meses, cheguei emagrecer seis quilos. Comecei a pegar uns quilinhos depois do quinto mês. Descobri a gravidez com dois meses, quando passei mal, mas até passar mal, estava jogando, fiz dois torneios grávida (risos).

Área Restritiva: Teve que deixar as quadras para cuidar da gestação, durante esse período que está  em licença, sente um pouco de saudades da quadra?

Na foto, o casal Julia e Luca Carvalho, os dois, pai e mãe da Bela, Luca está sentado olhando para a Julia que está olhando para a foto no momento do clique. Sim! No Basquete é possível ser mulher, atleta e mãe - Área Restritiva
Foto: Arquivo Pessoal

Julia: Eu tive que largar as quadras e o trabalho também. Sinto muita saudade da quadra, de treinar e jogar.

Área Restritiva: Como mulher, o que está aprendendo sobre você com a maternidade? E o que diria para as atletas que temem ser mães?

Julia: A maternidade me fez ter certeza de que estou pronta para ser mãe. Para as atletas, tudo tem seu tempo, quando for pra ser, será, não adianta. 

Área Restritiva: Quais são os seus planos após a chegada do bebê?

Julia: Me dedicar totalmente para a Bela e ir voltando a minha vida aos poucos sem nenhuma pressa.

Área Restritiva: E agora me fale como está a ansiedade de segurar a Bella em seus braços?

Julia: Está muito grande, sonho com ela sempre, imaginando o seu rostinho, a segurando e amamentando. Logo esses sonhos vão se realizar.

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Vanessa “Sassá” – mamãe da Anallu

Na foto, a jogadora da equipe de Basquete 3x3 do Corinthians Sassa, ela está segurando no colo a sua filha Anallu, que por sua vez está segurando a medalha da Liga ANB 3x3. Sim! No Basquete é possível ser mulher, atleta e mãe - Área Restritiva
Foto: Arquivo Pessoal

Área Restritiva: Como foi a descoberta da gravidez? Qual a primeira coisa que fez ao descobrir?

Sassá:  Então, foi bem doido. Primeira coisa que eu fiz quando eu tive certeza foi pensar: “Putz, e agora?! To feliz ou triste?!”. Não sabia muito bem a sensação 

Área Restritiva: Ser mãe era um sonho?

Sassá: Sim, muito! Um sonho, sempre quis ser mãe. Eu falava para a minha irmã de criação que queria ser mãe aos 22 anos e fui.

Área Restritiva: Quando divulgou que estava grávida, qual foi a reação da família, e de suas companheiras de equipe?

Sassá: Bom, as meninas que moravam comigo teoricamente sabiam por causa dos meus temperamentos, a Thaissa e Aruzha moravam comigo na época. Então, elas foram uma das primeiras e depois a Sil, que passou pela mesma situação que eu. Minha mãe ficou super feliz e disse: “ Graças a Deus vou ser avó, eu era a única da família que não era vovó“. A minha outra família, porque eu sou privilegiada em ter duas mães, era a minha família mais próxima porque morávamos na mesma cidade. Me apoiaram totalmente, estavam tentando entender esse lance de ser avós (risos).

Área Restritiva: Durante a gravidez como deu-se sua rotina de treinos? Chegou a continuar jogando nos primeiros meses de gravidez? 

Sassá: Então, por incrível que pareça, foi minha melhor fase em treinos e jogos. Eu joguei até os quatro meses de gestação, com algumas atletas com medo de me marcar, confesso que eu aproveitava da situação (risos). Ma, o mais difícil era as viagens de avião, passava muito mal, tudo com acompanhamento de um médico. Santo André foi muito cuidadoso comigo, a Arilza (Coraça) e Laís (Elena) também.

Área Restritiva: Como foi seu retorno às quadras após a licença maternidade?

Sassá:  Nossa, foi difícil. Pois foi uma mistura de sentimentos, e muita doideira.

Minha mãe trabalhava, então era só eu e a Anallu. Enquanto ela dormia eu realizava os exercícios, e assim foi. O Santo André achou que eu não estaria totalmente focada, ficaram chateados pela situação. Foi até bom, pois não teria conseguido esse time maravilhoso do NBPG, Deus sabe de todas as coisas. A Anallu tinha sete meses quando voltei a jogar, a primeira viagem eu fui sozinha. Mas ela chorava muito, ela estranhava todo mundo. Então, minha mãe começou a me acompanhar.

Na foto, Vanessa Sassa, da equipe de Basquete 3x3 do Corinthians. A jogadora está segurando sua filha no colo, que por sua vez está segurando o troféu de campeã do torneio de Basquete 3x3 da CBB. Sim! No Basquete é possível ser mulher, atleta e mãe - Área Restritiva
Foto: Arquivo Pessoal

Área Restritiva: Qual o sentimento de jogar em locais e/ou cidades distantes de casa, e ter que deixar sua filha? Ou a Anallu te acompanha?

Sassá: Bom, eu nunca tive coragem de deixar ela. Todos os lugares que eu iria deixava avisado que ela iria comigo ou eu não ia. Até porque eu não tinha e não tenho com quem deixar ela para viajar e ficar uma semana fora. Todos trabalham e somos muito apegadas. Confesso que era bem puxado, mas minha mãe me acompanha na maioria dos jogos. Tanto que o primeiro time que eu fui com ela, foi Ponta Grossa, minha atual equipe. Minha mãe vai até hoje, mas às vezes revezamos, o pai da Anallu vai, a dinda ou minha irmã. E assim vamos indo,  fui para a Argentina com ela tentar jogar um torneio e voltei. Enfim, aqui estamos jogando 3×3 pelo Corinthians e 5×5 pelo Ponta Grossa.

Área Restritiva: Como você definiria, agora, ser mãe e esportista ao mesmo tempo?

Sassá: Olha, infelizmente o esporte aqui no Brasil não é muito valorizado. Então, depois que eu tive a Anallu, eu entendi que deveria ter outra profissão. Comecei a fazer cursos profissionalizantes, e agora eu sou mais mãe que trabalha, do que mãe atleta. 

Trabalho em uma clínica bem conceituada aqui em Santos, sou esteticista, massoterapeuta e futura professora de yoga. 

Área Restritiva: Como mulher, o que aprendeu sobre você após a maternidade? E o que diria para as atletas que temem ser mães?

Sassá: Somos muito mais fortes do que imaginamos. Eu não sabia que existia essa força de vontade dentro de mim. E o que eu diria para as atletas que temem ser mães? Vocês não sabem o que estão perdendo, de verdade (risos). Não tenham medo. Conseguimos criar, trabalhar, jogar, e tudo o que quisermos.

O melhor de tudo é chegar em casa e ver a felicidade daqueles olhinhos te esperando. Não é fácil, mas a gente consegue. Em especial agradeço muito minha família de criação, que sem eles eu nem sei o que seria de mim, e a minha mãe que se aventura comigo. Viajamos esse Brasil inteiro, porque ela não desiste do meu sonho. Só quem é mãe realmente entende.

Área Restritiva: O que a Anallu ou pocoyo como a chama carinhosamente te ensinou sobre a vida? 

Sassá: Eu posso dizer que é uma coisa de outra vida. Quem vê eu e ela, pode falar da nossa sintonia. Meus olhos enche de lágrimas só de falar. Eu sempre quis ela, era para ser minha, Deus me deu a minha força maior. Somos amigas, brincamos o tempo inteiro. Tenho impressão que daqui uns anos ela vai falar “mãe, se comporta” ( risos). Pocoyo, cacuça, pentelinha são tantos apelidos. Ela me ensinou que nunca é tarde para se reencontrar, ou melhor se achar. Tenho certeza que antes dela eu era perdida, mesmo não sabendo. E é até errado colocar essa responsabilidade nela, mas ela fez eu me reencontrar.

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