Essa semana, começo uma série nova no Área Restritiva. Como já puderam observar diversas vezes, gosto bastante de acompanhar o basquete de base, dar visibilidade e incentivar os novos talentos. Com essa abordagem, pensei em entrevistar alguns jogadores (e ex-jogadores), para descrever como foi sua trajetória, quais as dificuldades, grandes momentos e por aí vai. Mas, principalmente, para mostrar para a nova geração o que provavelmente enfrantarão em suas carreiras.

Na imagem, divulgação da equipe italiana que Jonathan Tavernari jogou, ele está do lado direito da imagem com os braços para trás utilizando a camisa da equipe, que é listrada branca e azul claro. Ao lado esquerdo as informações do atleta, descritas de cima para baixo da seguinte forma: Tavernari, Jonathan, #45, endereço do twitter, endereço no instagram e uma mescla da bandeira do Brasil com a Itália. Quando na base - Jonathan Tavernari - Área Restritiva
Jonathan Tavernari, #45.
Fonte: Twitter do atleta/@For3JT

Nesse início, começo com Jonathan Tavernari, ala do Dinamo Sassari, clube italiano que disputa a Lega Basket A e a Liga dos Campeões. Formado nas categorias de base do Volkwagen Clube e Pinheiros, o atleta teve uma carreira muito marcante nos campeonatos que disputou e sempre se destacou por onde passava. Além disso, fez uma das duplas mais vitoriosas nos anos 2000 com Caio Torres, atual pivô do Mogi.

E aqui, caro leitor, deixo um registro que já tive oportunidade de jogar contra o Tavernari! Fui o responsável pela sua marcação quando quando jogávamos pela categoria Mini (sub-13). Em uma oportunidade fui muito bem. Já na outra…..enfim, vamos para entrevista.

Área Restritiva – Quando/onde começou a jogar basquete e porque?

Jonathan Tavernari – Comecei a jogar basquete em São Bernardo do Campo com a minha mãe (Thelma Tavernari), pois ela era técnica.

ÁR – Quais eram suas referências de jogadores – nacional e/ou internacional?

JT – Crescendo, meu ídolo era o Oscar. E quando cresci e aprendi quem era o Jordan, virei fã dele. Mas para mim, o melhor de todos é o Kobe, pois vi a sua carreira do começo ao fim.

ÁR – Quais foram os melhores jogadores que viu jogar na base, mas que não viraram profissionais?

JT – Acho que de todos que lembro e que não chegaram a ser profissionais foi o Tiago Tomazini. Um talento, um potencial, o único que do Pré-Mini (sub-12) ao Juvenil (sub-19) que conseguiu ganhar um troféu de Melhor do Ano ao invés de mim e do Caio Torres.

ÁR – Você fez parte da seleção que contava com Caio Torres (com quem fez grande dupla na base), Bruno Pira, Tiago Tomazini, Jabur…Como foi sua primeira convocação para seleção de base e como funcionava a divisão de função dentro time, uma vez que muitos eram os líderes de suas equipes?

JT – Não tinha divisão de funções. Tentávamos fazer o melhor dentro das condições que tínhamos. Éramos muito novos e estávamos aprendendo a jogar ainda.

ÁR – Você jogou no high school dos EUA pela Bishop Gorman, nas categorias equivalentes ao sub-16/17. Quais foram as maiores diferenças que percebeu entre os estilos de jogo?

JT – Minha high school era uma das Top 25 nos EUA e então sempre enfrentávamos times bons com vários jogadores de Divisão 1 da NCAA. Então o talento técnico e físico era muito maior do que no Brasil

Na foto, Jonathan Tavernari quando jogava no High School pela Bishop Gorman, ele está correndo driblando a bola com a mão esquerda, usando o uniforme branco da equipe. Quando na base - Jonathan Tavernari - Área Restritiva
Jonathan no high school da Bishop Gorman contra Oak Hill Academy.
Fonte: Wikipedia

ÁR – Como eram suas rotinas de treinos, no Brasil e EUA?

JT – No Brasil, ia a escola das 7h30 às 13h, treinava 2 ou 3 vezes, dependendo do dia e do calendário de jogos. Nos EUA tudo é em torno a escola, então o estudo tem precedente.

ÁR – Qual foi a categoria que mais te marcou e porque?

JT – Acho que o meu ano de Mirim (Sub-14). No Pré-Mini (Sub 12), tinha sido o Melhor do Ano e o Melhor Jogador Sul-Americano; no Mini (Sub-13) não fui tão bem porque todos cresceram muito e eu não tinha dado um estirão. De consequência fomos vice-campeões naquele ano e o Tomazini o MVP. Durante as férias, cresci e treinei muito. E meu objetivo aquele ano era ser campeão invicto. Não fomos, perdemos 2 jogos o ano todo, mas fomos campeões e eu fui o MVP de novo. Naquele ano eu aprendi o valor de visualizar um objetivo e treinar todo dia com rumo aquele objetivo.

ÁR – Quais foram os 5 jogos memoráveis na base?

JT – 1- Meu primeiro jogo de federado, ganhamos do Banespa na prorrogação no Sub-13 (Mini). Tinha 9 anos e fui o cestinha do jogo com 12 pontos e acertei os 2 lances livres finais para ganhar o jogo.

2- Um jogo contra São Caetano no Infantil (Sub-15) ganhamos de uns 30 pontos e eu fiz o meu primeiro triplo duplo (34 pontos, 12 assistências e 10 rebotes)

3- Jogo 1 da final do Mirim: Ganhamos de 72 a 70, eu fiz 41 e o Caio 29.

4- Final do campeonato Brasileiro de estados contra o Rio. Sem dúvida, o melhor time que eu joguei na base. Foi o único jogo difícil que tivemos aquele Brasileiro e rivais de times viraram amigos e irmãos.

5 – Final do Cadete (Sub-17) quando eu era Infanto (Sub-16) contra o Ipiranga. O Cesar Guidetti era o técnico e ele me cortou da primeira seleção que fui convocado, então poder ter ganho de 2-0 contra o time dele e do jogador que ele levou no meu lugar não teve preço.

Na foto, Jonathan Tavernari, atuando pela seleção brasileira, ele esta driblando a bola com a mão esquerda, com o tronco inclinado olhando para a frente, na partida ele está utilizando o uniforme amarelo da seleção. Quando na base - Jonathan Tavernari - Área Restritiva

ÁR – E quais jogos que deveriam ser esquecidos?

JT – A final do Infanto (Sub-16) contra Limeira. Ganhamos de 33 pontos e não joguei nem o último quarto. Tínhamos um time muito forte aquele ano (7 jogadores na seleção paulista e 5 na Brasileira*) e fomos bi-campeões invictos. Ninguém pulava ou gritava de ser campeão. Acabou tudo e todos estávamos prontos para ir para a pizzaria.

*Jogadores do Pinheiros na seleção brasileira: Jonathan, André Almeida, Caio Torres, Luizão e Renato Ribeiro. O armador Tiago Jabour chegou a fazer parte do clube também.

ÁR – Qual seu recorde de pontos? Como foi?

JT – Nas categorias de base foi de 50 pontos na Bishop Gorman, no meu último jogo antes dos playoffs.

ÁR – Como foi a decisão de se profissionalizar: continuar ou parar? Tinha um plano B?

JT – Sempre sabia e sentia que viraria profissional. Só dependia de saber e decidir aonde. Meu plano B foi ir para os EUA e estudar e me formar em 2 faculdades, como fiz.

ÁR – Quais são as maiores dificuldades que enfrentou no desenvolvimento – por exemplo, dificuldade de locomoção, falta de apoio/visualização, lesões, ausência em eventos familiares, alimentação, exigência de técnico, gestão de tempo…

JT – Maior dificuldade era em balancear o estudo com o esporte. No Brasil é muito difícil fazer os 2 bem. Minhas notas na escola no Brasil eram 6-7. Nos EUA me formei na high school com 9.98 e na universidade (BYU –  Brigham Young University) com 8.3.

ÁR – Já teve alguma decepção com o esporte na base – falta de espaço, politicagem, desinteresse do clube…?

JT – Quando o Volkswagen Clube acabou e fechou as portas doeu muito. Muito demais. Pois era a minha casa, onde eu aprendi a jogar e estive lá desde quando nasci até os 14 anos. Depois tive a benção de poder ir pro Pinheiros. Foi um sonho que eu realizei.

ÁR – O que acha que falta no desenvolvimento dos atletas no Brasil?

JT – Comprometimento. Todos falam “O basquete não tem base..”. Pera aí, e minha mãe? A vida dela é ensinar meninos a jogar basquete. E assim como ela, conheço algumas pessoas que trabalham bem na base. E todas essas pessoas tem o comprometimento em ensinar crianças a jogar.

ÁR – Qual a maior dificuldade que um atleta da base sente quando começa a treinar com adultos ou uma categoria superior?

JT – O aspecto físico. Sem dúvida alguma.

ÁR – Teria feito algo diferente?

JT – Não. Tudo o que fiz me tornou a pessoa que sou hoje.

Pessoal, espero que tenham gostado. Deixem sugestões abaixo sobre curiosidades que possam a ter que encaixo nas próximas!

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