A primeira entrevista do Área Restritiva chegou, porque não falar com um técnico de Basquetebol, que vem se tornando uma referência na modalidade? O Área conversou com o Cristiano Cedra, técnico de Basquete do Bradesco, com passagens pela Seleção Brasileira em diversas categorias, além de ter atuado também como professor universitário.

Em 2011, ele foi assistente-técnico da Seleção Brasileira Sub-19, 3º lugar no mundial e técnico da sub-15 Campeã no Sul-americano, ambas seleções femininas de basquetebol, peço licença para falar um pouco sobre como eu tive o primeiro contato com o Cristiano Cedra, ainda como professor universitário.

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Lembro até hoje do dia da primeira aula de basquetebol com o Cris, estávamos em torno de 5 alunos, esperando o professor dentro da sala de aula e eu apreensivo, afinal eu estava esperando por aquele momento.

Pontual, entra Cris, que não se abalou com o número de alunos e se apresentou.

“Oi, eu sou o Cristiano Cedra. Sou o professor da disciplina de basquetebol.”

Naquele momento, um frio na barriga, entusiasmo eu acho e todos olharam para mim, porque já sabiam que era a matéria que eu mais esperava.

Então ele completou, “hoje eu vou começar a dar matéria, e ela é importante”.

Todo mundo parou e começou a questionar, primeiro porque era primeiro dia de aula e ele já queria dar matéria.
Eu porque queria saber quem era o professor de basquetebol.

Então convencemos o Cris a não dar a primeira aula naquela quinta-feira e se apresentar para nós, para assim conversarmos, mas ele não queria fazer isso e não tinha preparado nada para tal ocasião, pediu então que realmente fizéssemos um bate-papo, algo meio perguntas e respostas, ele se dispôs a responder tudo o que quiséssemos.

Acho que o começo de tudo não era bem o que ele queria que acontecesse, ficou parecendo um interrogatório, perguntas secas e respostas desconcertadas, não da minha parte é claro eu queria realmente estar ali, tudo o que eu perguntava, eu fazi olhando nos olhos dele, como se fosse tirar algo mais, eu queria que ele soubesse quem era eu, aquele era o meu momento.

Bom, o Cris sobreviveu e ficou muito claro naquele momento o tipo de pessoa que ele era, uma pessoa humilde que queria conquistar o reconhecimento pelo seu esforço e trabalho e não pelo o que ele já foi, pelo que ele já conquistou.

Garanto hoje que todos os alunos que tiveram aulas com ele, tem boas recordações desses momentos.

Professor Universitário e Técnico de Basquete, conversamos o Cristiano CedraÁrea Restritiva – Fale sobre sua carreira como Jogador e Técnico:

Cristiano Cedra – Aprendi a jogar basquetebol no Colégio em que eu estudava (Colégio São João Gualberto). A Educação Física Escolar era diferente naquela época e nós tivemos a oportunidade de vivenciar e aprender diferentes esportes. Após esta vivência, gostei muito do basquetebol e do voleibol.
Certo dia, a técnica da S.E. Palmeiras visitou nosso Colégio para fazer uma peneira e selecionar garotos para integrarem as equipes federadas daquela agremiação. Eu não participaria deste teste, em função da minha idade. Eu era muito novo para o teste. Porém, faltava um aluno para completar os quintetos e assim fui chamado só para facilitar a dinâmica do teste. Resultado: fui aprovado! Sem demora, comecei a treinar e o basquetebol se tornou a grande paixão da minha vida.

Depois da S.E. Palmeiras, joguei no C.R. Tietê, S.C. Corinthians Pta. e Associação Brasileira “A Hebraica”. Tive o privilégio de ser treinado por grandes técnicos, conquistar alguns títulos e fazer muitos amigos.
Quando eu jogava no S.C. Corinthians Pta, em 1998 ainda com 17 anos, comecei auxiliar os treinos da escolinha, pré-mini e mini. Gostei muito da experiência e tive certeza que tinha tomado a decisão certa ao muito antes, decidir que me graduaria em Educação Física. Depois disso, fui técnico de basquetebol do C.R. Tietê, Colégio Bandeirantes, times universitários, Macabi, São Paulo F.C., Associação Brasileira “A Hebraica” e do Bradesco Osasco (Ex-Finasa Osasco). Depois de mais de 10 anos de carreira tive o privilégio de ser convocado para integrar as Comissões Técnicas da Seleção Brasileira de Base Feminina.

Área Restritiva – O que você acha que mudou no basquetebol do seu período como jogador e o período como técnico

Cristiano Cedra – Infelizmente, os fundamentos do jogo perderam espaço para a parte física e para a parte tática do jogo. O acesso a informação se tornou muito acessível e isto tem sido um problema duplo: técnicos muito focados em sistemas táticos e atletas com muitas opções de atividades extra-curriculares (quando são cursos não há problema, o problema é quando esse tempo é preenchido com futilidade) e com pouco tempo para se aperfeiçoarem nas suas habilidades. Hoje, são poucos atletas que após aprenderem uma nova habilidade no treino, a praticam fora do tempo do treinamento. Atletas não fazem mais suas “lições de casa” como fazíamos antigamente!

Área Restritiva – O que você mudaria na sua carreira como técnico e como atleta de basquetebol?

Cristiano Cedra – Ganharia todos os jogos!

Área Restritiva – Quais são os seus ídolos jogador (a) e técnico (a) no basquetebol?

Cristiano Cedra – Quando eu jogava, eu gostava de assistir alguns jogadores:
Categoria de base: Gustavo (atual técnico do Paulistano);
Adulto: Álvaro (ex-armador do Palmeiras na década de 90);
NBA: Mark Price (Cavs);
Fiba: Drazen Petrovich;
Feminino: Paula, Helen Luz e Hortencia;

Professor Universitário e Técnico de Basquete, conversamos o Cristiano CedraÁrea Restritiva – Você já passou por diversas categorias como assistente técnico e técnico de times e da seleção brasileira, conta um pouco como funciona a preparação das categorias.

Cristiano Cedra – Depende muito da equipe, da idade, do objetivo, do momento e das pessoas envolvidas. Mas, sempre tento conciliar o lado educacional com o formativo, tanto da pessoa como do atleta. Meu empenho maior sempre foi em ensinar e aprimorar os fundamentos.

Área Restritiva – Você acha que o basquetebol feminino está mais estruturado do que o masculino, tem um trabalho com a base mais interessante a longo prazo?

Cristiano Cedra – Não. Trabalho a longo prazo no basquetebol brasileiro é uma exceção em que poucas instituições conseguem fazer. Muitas vezes, o discurso é diferente da prática.

Área Restritiva – Qual foi o momento mais marcante para você na comissão técnica da seleção brasileira?

Cristiano Cedra – Em 2011, fui técnico da Seleção Brasileira Sub-15 que se sagrou Campeã Sul-Americana no Equador. Durante a preparação, falei muitas vezes do quanto que o sacrifício despendido nos treinamentos são recompensados quando subimos no pódium e ouvimos nosso Hino Nacional. Quando chegou este momento, a organização do Campeonato não tinha o Hino Brasileiro. Não tivemos dúvida, cantamos o Hino Nacional no pódium e o todos os torcedores presentes no ginásio se levantaram e fizeram silêncio, depois recebemos a maior salva de palmas que já presenciei em minha vida! Com certeza, foi o momento mais marcante.

Professor Universitário e Técnico de Basquete, conversamos o Cristiano CedraÁrea Restritiva – Na sua opinião o que melhorou e o que piorou no basquetebol brasileiro após a criação da NBB?

Cristiano Cedra – A organização da NBB é muito boa. A visibilidade e a credibilidade do nosso esporte aumentaram.

Área Restritiva – A NBB vai trazer mais visibilidade para a LBF?!

Cristiano Cedra – Acho que não. São realidades diferentes.

Área Restritiva – O que você acha que tem que mudar no basquetebol nacional

Cristiano Cedra – Mudaria algumas coisas, mas nenhuma modificação terá efeitos satisfatórios se não melhorarmos a parte técnica dos nossos atletas. Precisamos voltar a ensinar os fundamentos do jogo. Na minha opinião, questões como patrocínios e exposição na mídia são fundamentais, mas dependendo da qualidade do jogo televisionado, o efeito pode ser contrário do que o esperado.

Área Restritiva – Em uma de suas aulas, você disse que o basquetebol já foi o segundo esporte mais praticado no Brasil, o que precisa ser feito para voltarmos para a segunda posição?!

Cristiano Cedra – Precisamos de professores que ensinem o basquetebol na escola, precisamos de técnicos de ensinem os fundamentos do jogo e de identificação das equipes com as cidades. O interior do Estado de São Paulo é um bom exemplo de como em algumas cidades, o basquetebol é o segundo esporte. Esse modelo da equipe ser da cidade deve ser mais explorado e levado para as outras regiões do Brasil. O basquetebol deve ser descentralizado urgentemente.

Área Restritiva – Uma frase que marca a sua carreira como profissional de educação física e do basquetebol?

Cristiano Cedra – Nunca desperdice a chance de fazer o seu melhor!

Área Restritiva – No blog, temos uma categoria onde indicamos livros para os nossos leitores, qual foi o ultimo livro que você leu e qual livro você indicaria para os leitores do blog?

Cristiano Cedra – O último livro que eu li foi:
“Não nascemos prontos” do Filósofo Mário Sérgio Cortella

O livro que eu indico é:
“How to be like Coach Wooden” do Pat Willians com David Wimbish.

Área Restritiva – Cris, Tenho um recado da Damiris, enviado quando questionei se ela queria falar algo para você:
Só quero dar parabéns pelo profissional que ele é…
Uma pessoa que me ajudou muito nesses 3 anos de seleção de base.”

Na foto, Cristiano Cedra. Técnico de Basquetebol da Seleção brasileira, ele está com a camisa polo azul da seleção. Aparentemente passando algum instrução para alguém dentro de quadra. Professor Universitário e Técnico de Basquete, conversamos o Cristiano Cedra

Bom, quero agradecer por tudo o que você tem feito na seleção brasileira feminina, o que você fez para nós seus alunos e atletas.
E tudo mais o que você possa fazer por todos os apaixonados pelo basquetebol.

Não sei nem mais o que dizer, sou muito grato a você, e esse post para mim era um dos mais esperados até agora.

Obrigado!

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