De dentro para fora do Jogo, uma visão diferente de quem de alguma forma viveu O Basquete.
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  O jogador culpado por sonhar...

Como compromisso de carreira, toda oportunidade que tivesse fotografaria jogos e eventos da base do esporte olímpico brasileiro. O mais recente foi a Liga de Desenvolvimento do Basquete. Trabalhei na segunda fase e na etapa decisiva. Ambas aconteceram no Paulistano, na cidade de São Paulo – em novembro e fevereiro passados. Ao todo registrei 17 jogos. Além de fotografar, pude também analisar os trabalhos dos clubes, ver, por exemplo, como os treinadores agiam com seus atletas. Todos de um jeito ou outro ficavam loucos da vida quando algo errado acontecia na quadra. Era até engraçado. Na hora do tempo, no entanto, todos os técnicos que pude fotografar de perto eram mais fraternais, nenhum “carregava demais na tinta” ou “perdia a linha”.

Mas qual o jeito certo de fazer esse trabalho com jovens? Gritar? Oprimir (talvez não seja o verbo)? Ser paizão? Ser grosso?

Meu sonho de sempre era ser jogador de futebol. Eu sonhava realmente que era bom o suficiente para jogar no meu time Flamengo e ser da Seleção Brasileira. Meu ídolo Zico moldou toda a minha infância. Eu acreditava sim que poderia ser o melhor do mundo como o Galinho do Mengão era na época. Meu primeiro brinquedo foi uma bola, minha primeira palavra foi bola, minha primeira andada corrida e queda foi atrás de uma bola. Era meu mundo. Em 1982, tinha sete anos, no bairro em que morava nasceu um time de futebol de salão, a Blindex. Hoje o esporte mudou muito, até o nome (Futsal), mas para mim essa equipe poderia abrir as portas do verdadeiro futebol, aquele do campo, da chuteira. Nessa época, ainda havia uma relação pai e filho aqui em casa e o meu acendia ainda mais meu sonho dizendo que realmente eu jogava muito bem. Quando o Flamengo conquistou o título mundial em 1981, disse pra ele no carro (íamos para o parque jogar bola) que seria campeão do mundo igual o Zico e ele disse “sim, com certeza!”

A Blindex montou todas as categorias do futsal, do fraldinha até os juvenis. Era uma quinta-feira, eu fui. Meu pai ficou na arquibancada e o que aconteceu depois pra mim ainda mora na memória num lugar bacana. Entrei na quadra e fui direto para a trave porque nela havia rede e eu nunca tinha jogado futebol com redes que balançavam. Mexi nela e me vi em segundos fazendo gols que balançariam essas redes. Foi emocionante.

Os garotos foram divididos por idade. Eu era muito moleque e muito ingênuo. Os técnicos chamavam os meninos pelo ano: 71, 72, 73 e isso me pareceu tão confuso que quando chamaram 75 (o meu), meu pai me alertou de onde estava. Meu treinador seria o Carlão, um sujeito grandão, troncudo, que me pareceu um tipo paizão que sorria pouco. Acho que nunca o vi sorrir.

Hoje não passo do 1,70, no entanto, naquele período eu era o mais alto e forte da turma. Como tudo começava do zero no time, fui colocado na defesa como fixo. Mesmo assim, ousado e se achando, tudo que era treino de coletivo, fazia gols adoidado. Na minha cabecinha de vento, meus gols concorriam com o craque Casagrande que no Corinthians de 1982 era o grande artilheiro. Eu contabilizava os gols de treinos também e no final da temporada eu tinha 30 e o Casão 28. Hahah, eu era um craque. O que importava, porém, é que eu amava jogar futebol, amava demais. Poderia passar o dia inteiro jogando… mesmo com um probleminha no joelho que já aparecera em 1982.

Meu time foi um sucesso nessa temporada. Chegamos na final do principal campeonato da categoria fraldinha de São Paulo. Fui titular o ano todo. Fui feliz pakas. Carlão nos treinava com paciência, não lembro de verdade dele ter perdido a calma ou dele ter sido grosso. Mais para o fim do ano, ele começou a me chamar de lado dizendo que o moleque tal estava treinando mais do que eu e que poderia pegar meu lugar no time. Mas eu era tão feliz ali que nunca vi nenhuma ameaça. Eu continuava jogando e isso que importava. O ano acabou. Fiquei muito doente em dezembro e quase não participei da confraternização da equipe. Os melhores de todas as categorias ganhariam troféus. Todo mundo ganharia a velha medalhinha de honra ao mérito se não levasse os prêmios mais bacanas. Mesmo com febre alta, enchi meu pai para ir na festa. Quando fui chamado, não ganhei troféu. Se eu não fosse tão bobo (ok, era só uma criança), teria percebido que algo estava errado e que eu não era tão bom assim.

Ok! Rumo à próxima temporada.

O sucesso da Blindex chamou a atenção de outros clubes. Um deles, o Juventus da Mooca, achou que seria bacana juntar as duas equipes. Fazer os garotos deles jogarem também pra Blindex. Alguém da diretoria do nosso time achou que isso ia ser legal… Pra quem? Pra mim, com certeza não. No início de 1983, no entanto, eu ainda pensava que era o Zico e jogaria no pré-mirim. Técnico novo. Um homem alto, careca, magro pra danar e que por mais que eu tente não consigo lembrar seu nome. O Carlão seria uma espécie de auxiliar. No meu primeiro contato com esse treinador novo, nada demais. Ele até fez piada e fomos treinar, jogar. As coisas corriam como deveriam. Até que comecei a me cansar – cansado demais – no jogo, como nunca acontecera antes. E isso fazia eu não pensar direito. Resultado: passei a errar coisas estúpidas como um passe de um metro pro colega do lado. Ok, errar todo mundo erra, o ponto é que eu tinha oito anos de idade e quando errei pela primeira, levei do meu técnico novo uma bronca sonora, gigante, pra todo mundo ouvir, que lembro que só olhei pro meu pai na arquibancada e ele meio que virou o rosto, talvez de vergonha. Eu achei que ia chorar e devo ter chorado mesmo.

Era um cansaço que começava a me dominar nos treinos e jogos. E os erros se repetiam e os xingamentos, gritos e broncas só aumentavam. Eu perdia meu espaço na equipe. Se o treinador estivesse do meu lado treinando, corrigindo meus erros, me ajudando, mas não… Só havia a crítica nefasta. Eu lembro de verdade de me sentir encolhendo cada vez mais e de não mais querer jogar futebol. Aquilo que eu amava tanto se tornava algo tão doloroso e difícil por causa de um homem. Mas tudo pode piorar. Saí do banco, entrei no jogo difícil, fui recuar a bola para o goleiro, exagerei na força e acabei fazendo gol contra. Olha, se o cara pudesse, ele teria me batido. Meu corpo todo tremendo, um medo que eu nunca antes havia sentido. Será que eu era tão ruim antes e nunca havia percebido? Poxa, eu competia com o Casagrande do Corinthians nos meus sonhos.. Tudo mudara com esse novo técnico e agora até gol contra eu fazia… e nesse dia como qualquer criança de oito anos que perde seu brinquedo favorito, chorei sozinho no vestiário  até não ter mais lágrimas.

Aquilo que poderia fazer um dia inteiro, agora me deixava doente e incapaz. Eu não conseguia pensar dentro da quadra. Meus passes eram ridículos, minhas ações estúpidas e tudo que vinha do banco eram mais críticas, xingamentos, palavrões. Eu era um bosta pra ele. Eu me sentia uma bosta.

Eu só tinha oito anos e não amava mais o futebol. Não tinha mais sonhos…

Na rodada seguinte, o moleque do outro time foi até a lateral e chutou a bola despretensiosamente. Eu, perdido no mundo da lua, estava na área do lado do meu goleiro (fazendo o quê, imbecil?)…  A bola veio forte, bateu na minha canela e entrou no gol do meu time. Dois gols contra  em dois jogos seguidos. Uma vergonha gigantesca me consumia. Meu treinador olhava pra mim como que dizendo: seu bosta, não vai mais jogar aqui… Dessa vez, ele não disse nada. Me tirou do time. Na rodada seguinte, havia dez camisas para o jogo. Treze moleques. Pela primeira vez, não vesti o uniforme. Menti pro meu pai dizendo que estava machucado. Ele aceitou isso como verdade e fomos embora.

Nos jogos na escola, meu medo da bola, meu medo de jogar, também se manifestou. Meus colegas não me escolhiam mais. Eu que fazia os times antes, agora não era chamado por ninguém. Naquele ano, quando começou um campeonato importante, não fui relacionado. Eu nem tinha nove anos e estava acabado para o meu sonho. Não sei se isso é justo. Perambulei ainda pelo Vila Maria e Goodyear. Mas nunca mais fui o mesmo do primeiro ano: o menino que amava o jogo de bola e que se emocionava com o balançar das redes. Nesse período, minha família ficou sócia do Corinthians e descobri o vôlei, o basquete, a natação, o judô. Me identifiquei com eles e fui bem na medida do possível. Fui um bom levantador do time de vôlei da escola e se existisse líbero na época teria chamado a atenção. Futebol nunca mais, nem em times, nem na escola.

O técnico campeão do Paulistano Roberto Jaime e o craque da final da LDB Gemadinha

O técnico que matou meu sonho (me desculpe, mesmo eu sendo ruim, ele deveria ter cuidado de mim) nunca mais vi. Não sei que fim levou. Mas de verdade todas as vezes em que penso em futebol, eu lembro daquele cara no banco gritando comigo o quanto eu era ruim, o quanto eu não prestava, o quanto eu incompetente… Eu só tinha oito anos….

Fotografar o LDB me permitiu refletir. Será que o treinador bom é aquele que xinga? Não vi nenhum fazendo isso no LDB. O treinador bom de um time bom tem que agir como??? Será que algum dos meninos do LDB se arrependeu de estar lá jogando? Acho que não… Meu treinador do futebol de salão não me treinou, não me formou, não me deu a base… De verdade, a única coisa que ele fez foi deixar claro pra mim “a bosta que eu era pro futebol”…

Esses garotos, o futuro do basquete brasileiro, parecem estar em melhores mãos…. Que bom!

SOBRE O AUTOR CONHECER TODO TIME
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