Histórias e amizades que o basquete me deu

Hoje conto um pouco da história do William no basquete e sua luta pelos direitos das pessoas com deficiência

A vida de um atleta é um tiro no escuro. Claro que todas as carreiras têm seus altos e baixos, e pode sim acabar de uma hora pra outra, mas parece que quando você escolhe um caminho do esporte, você meio que tem já uma lenha para queimar até o auge e sempre quer exigir o máximo de si próprio. E ainda tem as lesões que podem te tirar de uma hora pra outra de um mundo ao qual você dedicou todo o tempo e esforço e mesmo assim você querer continuar trabalhando com aquilo que se ama.

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William Henrique da Silva, 48 anos, homem negro no Brasil, é mais uma de tantas dessas historias de indivíduos que amam o esporte. Uma pessoa muito firme, sensata e de decisões rápidas – pelo menos esse foi o Will que conheci na beira da quadra. A lembrança que eu tenho mais viva na memória foi dele em um amistoso perguntar quanto tempo eu conseguiria jogar, e eu disse “dez minutos”. Ele riu e respondeu para que eu fosse com calma, pois sabia que eu não ia aguentar. Ele foi o primeiro técnico cadeirante que eu conheci. Na verdade, auxiliar técnico, mas aquele jogo era ele que estava no comando e claro, sabia muito mais do que eu. 

Hoje tive a oportunidade de conversar com ele sobre sua trajetória no esporte e pela luta das pessoas com deficiência na cidade de São Bernardo do Campo, e um pouco também sobre sua vida.

William se tornou cadeirante devido a um disparo acidental de arma de fogo em casa, onde ainda menino, com oito anos, acompanhado do pai que limpava sua arma, ela disparou. Logo depois disso morou por mais oito anos em um colégio interno e se mudou para São Bernardo do Campo, onde iria morar com a família que já estava aqui. Como todo mundo, ele estava atrás de seu sustento e o de seus familiares. Ele conheceu Tiago, que lhe fez uma proposta para ir conhecer a antiga ADESF, uma associação que trabalhava com pessoas com deficiência aqui em SBC.

+A semente do basquete em cadeira de rodas

No fim da entrevista, ele me contou que não havia nada de serviço, mas conheceu o esporte ali, além de conviver com pessoas com os mesmo problemas que ele, e juntos formaram um dos primeiros times daqui, o Fênix. Como todo início é difícil e as cadeiras não eram nada parecidas como são hoje, os primeiros treinos foram dados em cadeira de hospitais. Para nós tudo sempre foi caro, diz ele, mas tudo foi feito com a colaboração dos próprios atletas, vendendo adesivos na rua.

Ao se destacar nos seus quinze anos aqui em São Bernardo, onde participou de várias reuniões, o que resultou em diversas melhorias pela cidade, ele recebeu um convite para jogar pela ADD no time do Magic Hands, onde chegou a ser vice-campeão brasileiro. 

Ele não conseguiu receber seu Bolsa Atleta, e devido à lesão, teve que se afastar do esporte. Hoje William ainda está longe do esporte, como ele mesmo relata, mas ainda continua na briga pelos direitos das pessoas com deficiência. E ainda tem muita paixão e vontade para trabalhar com o basquete em cadeira de rodas, e está com um projeto para começar uma nova instituição e realizar um trabalho transparente e honesto na cidade.

Nossa conversa poderia ter durado mais umas duas horas, só para eu ficar ouvindo as histórias de quando seus amigos ainda atletas vêm jogar no centro paralímpico Imigrantes – e ele sempre vai assistir um jogo ou outro -, mas William quer mesmo é trabalhar dentro de quadra como auxiliar. Eu torço muito para que ele consiga realizar seus projetos pelo esporte e possa contar ainda muitas histórias a respeito desse homem de cara séria e olhar atento na beirada da quadra, onde ele entende muito de rodas e bola laranja.

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