De dentro para fora do Jogo, uma visão diferente de quem de alguma forma viveu O Basquete.

Neto se aposentou depois de passagens por Palmeiras e Pinheiros. Marcelinho do Flamengo joga sua última temporada. Tenho pensado muito sobre o tempo. A doença da minha tia, a fragilidade da minha mãe, são gatilhos desse processo. O tempo que acaba com tudo. Será?? O tempo não tem culpa.

Então, nasceu essa história …

O relógio trava faltando pouco mais de um segundo. O apito estridente para tudo e prolonga o tormento. Ginásio lotado, como sempre estivera nos últimos meses. Final de campeonato, meu último jogo, dores terríveis no joelho, microfone do Globo Esporte pronto para o herói da noite e um placar apertado de 71 a 70 pra eles. Uma falta a nosso favor: dois lances livres convertidos e a gente ganha. Minha responsabilidade. Clichês, clichês. Pois é, estava eu vivendo tudo isso.

O tempo técnico dura dois minutos. Seu Kalanga fala pouco, não há o que dizer nessa altura do campeonato. “Tenha calma, filho”, ele pede, mas se conheço bem o velho, ele pensava “acerta essa porra, filho da puta!”. Era doce e poético meu treinador. Mesmo aos 43, não me sentia cansado. Poderia continuar minha carreira até a próxima olimpíada. O problema estava mesmo no joelho direito e a tendinite que me perseguia desde moleque. Doía demais, sabe, coisa de velho, eu acho. Bebo um gole de água, cuspo pra cima, me babo todo, nojento, uma menina da torcida ri da trapalhada. A campainha toca e o drama mexicano recomeça.

Eu era profissional há 25 anos. Passei por maus bocados nessa vida de quadra, mas fui feliz em alguns momentos, não posso reclamar não. Mesmo não sendo um gigante, me virei, consegui bons contratos, até joguei pela seleção por uns tempos. Conheci a China, toda a América, joguei no deserto do Saara. Fui feliz sim. O juiz me passa a bola para o primeiro arremesso. O Zeca me empurra, grita, tadinho, o moleque tá tenso. Sorrio pra ele. Um barulho desgraçado no ginásio. Olho pra cesta. Limpo as mãos molhadas na camiseta molhada. A bola quica uma, duas, três vezes e parte das minhas mãos. Gira uma vez no aro e entra bonita e caprichosa. Empatamos. No relógio aquele tempo ainda parado: 1,2 segundo.

O time todo me abraça, festeja, grita. A torcida comemora. Uai, o jogo não acabou ainda. Bola do jogo nas minhas mãos, de novo. Tudo fica mais lento. Uma fração de segundo agora dura tanto que os pensamentos mais distantes e doidos encontram guarida na minha cabecinha de vento. Olho para o banco e vejo Seu Kalanga ainda cabeludo,  black power. “Ah, você é muito baixo, não vai dar não, não vai dar não, vai estudar moleque, você não tem futuro”. Vejo seu Kalanga, anos depois. “Ah, meu filho, como fico feliz de você ter sido tão teimoso”.

Me foco agora num canto vazio da arquibancada. Ali estava Leo sempre me olhando, lambuzado por causa do algodão doce. Os olhões azuis se enchiam de orgulho quando eu me dava bem, olhões azuis se enchiam de lágrimas quando eu me ferrava. Aí eu pegava ele no colo, mentia dizendo que estava tudo bem e a gente, eu e Leo, tocávamos a vida. O canto vazio da arquibancada agora, sem Leo, sem nada. Fecho os olhos, ainda a bola do jogo nas mãos, e consigo sentir o cheiro do mar, gosto do mar, acho que vou morar perto do mar. Pego onda pela primeira vez, me afogo tanto ali de felicidade. O sol já indo embora devagarzinho. Não estou sozinho ali.

O barulho da torcida. Meu time agitado. Seu Kalanga “acorda, filho da puta!” (tão meigo seu Kalanga), o espaço vazio na arquibancada e dentro do meu peito. A bola nas mãos. A cesta ali na frente. Percebo que o joelho finalmente dói como nunca. “Porra, to cansado”! Já tinha decidido outros campeonatos, não era mais menino. Não temia mais nada. A bola do jogo. A cesta lá na frente. O relógio ainda marcando 1,2. Arremessar e fim de jogo. “To cansado mesmo”. O Zeca reza. O Zeca rezando? Primeira decisão do menino, deixa ele, mas o Zeca rezando? Sorrio pra ele, que não me vê sorrindo. Zeca está rezando. Um barulho desgraçado no ginásio. Olho pra cesta. Limpo as mãos molhadas na camiseta molhada.

A bola quica uma, duas, três vezes e parte das minhas mãos.

A bola laranja descreve uma parábola.

Ela viaja bonitona. Eu olho pra ela e gosto dela, sabe. Gosto mesmo. Amor?

Ninguém respira, ninguém fala nada.

Eu só olho pra bola voando bela, in slow motion.

No canto vazio da arquibancada, meio mal iluminado, um pirralhinho de cabelo na testa e olhos de mar, acena com a mãozinha um “oiiiiiiiiiiiii”, tão livre, tão livre.

Lá, e agora parece tão longe, tanto tempo depois, a bola voando, livre, tão livre.

Sorrio um sorriso de verdade e espero acontecer o que tiver que acontecer.

SOBRE O AUTOR CONHECER TODO TIME
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