Claro que o retorno do Basquete é importante em meio ao aumento de casos de Covid-19

No Brasil, entre flexibilizações e discussões estamos a mais de dois meses com diversas atividades profissionais suspensas, a fim de evitar a proliferação do coronavírus (covid-19) e passando por um isolamento social que beira o ridículo, porque é uma briga das pessoas conscientes com as que não tem a consciência, e não estamos falando ainda do que é ou não trabalho essencial.

Em meio dessa bagunça, o Basquete caminha a passos de retornar e aqui não estamos falando de NBA, mas sim de competições nacionais. Entenda o que está acontecendo.

Brasil é o foco do Covid-19 no mundo

O Basqueteiro gosta de estatísticas. Então para contextualizar melhor você sobre o que está acontecendo vamos de números no “melhor do covid-19” pelo mundo e estamos no topo.

Segundo o site Worldmeters, o Brasil hoje (29/5) tem 438,812 casos confirmados, com 26,764 mortes e 193,181 pessoas que se recuperaram do coronavírus, e quando falamos de casos confirmados estamos falando de pessoas que testaram positivo para covid-19, é muito importante ressaltar que a “oferta” de testes não supre a necessidade da população.

Esses números são de casos confirmados, se compararmos em números estamos bem, afinal o Brasil tem 212.422.152 de habitantes, enquanto o epicentro do mundo tem 1.772.578 casos com uma população de quase 331 milhões de habitantes. Esses são os números dos EUA em relação ao Brasil.

Apresentamos esses dados, mas não é para ficar confortável e começar a se trocar para ir bater bola. Não levamos em consideração as subnotificações. Uma publicação feita pela Veja Saúde fala de 14x mais casos levando em consideração as subnotificações, nesse caso o Brasil teria um número de mais de 1.6mi casos confirmados, se tornando o epicentro do mundo, isso no dia 4 de maio, hoje os números iriam ser diferentes.

Ainda segundo o Worldmeters no dia 28 de maio foram contabilizados 24,151 novos casos de covid-19 no país, comparando com as Américas. Somos responsáveis por 41% dos casos no continente, isso de acordo com a Organização Pan-Americana de Saúde (aqui mais uma vez falando de casos confirmados).

Na imagem o mapa de casos notificados pelo Ministério da Saúde. Um mapa do Brasil em diversos tons de verde onde o verde mais escuro é a maior concentração de casos de Covid-19, no caso São Paulo detém o recorde de casos. Covid-19 + Basquete é uma conta que não vai fechar - Área Restritiva
Imagem do mapa de Casos de COVID-19 por UF de notificação. Imagem: Ministério da Saúde

Em São Paulo, que é o centro de casos no Brasil, está trabalhando em protocolos de flexibilização o que em qualquer outro cenário seria maravilhoso, mas aqui no primeiro dia depois da divulgação da flexibilização um novo recorde de casos confirmados 6.382, além das novas mortes, que agora somam 6.980.

Não entrando nessa discussão, mas é importante contextualizar para que todo mundo entenda a gravidade da situação. Não acredita nas informações sobre covid-19, aqui está o link da Organização Mundial da Saúde, onde você pode consultar por país e ter as informações de quem faz a curadoria disso em nível mundial. A Google também te apresenta as informações, além desse vídeo sobre números relativos.

Mas o Basquete no mundo também está voltando não só as outras atividades

No esporte usamos uma régua grande para a medição de coisas pequenas, o problema é que não é a régua certa para isso. Medimos o que acontece na modalidade pelo que o profissional pode fazer e na mesma lógica seguimos exemplos da Europa e da NBA, que são os melhores Basquetes do mundo.

Okay! Temos que nos espelhar no melhor para alcançar a excelência, mas essa régua só serve para analisar o que acontece no país, pegar o Case de Sucesso e adaptar para a nossa realidade.

Para falarmos da NBA, já noticiamos aqui e seguimos acompanhando o que acontece por lá, mas eles vão fechar a Disney só para a NBA, colocar todos os times dentro do formato que eles adotarem em um local só, e para isso vão contar com cerca de 15.000 testes para serem usados só para a temporada 2019/20.

Os treinos individuais estão acontecendo e existe uma movimentação para o retorno de treinos coletivos, mas os cenários seguem sendo estudados.

Aqui talvez seja a maior diferença disso tudo. É aqui que temos que pegar o que está acontecendo em todos os lugares do mundo e adaptar essa régua para a nossa realidade. Quantos clubes e times de Basquete no Brasil têm seus centros de treinamento só para o Basquete? Quantos clubes no Brasil tem a estrutura do time de menor valor de mercado da NBA?

Faça essa comparação nesse momento o time de menor valor no mercado é o Memphis Grizzlies que segundo a Forbes vale 1.3 Bilhões de Dólares. Em um exercício mental, comece a comparar os times de Basquete no Brasil com o Memphis Grizzlies.

Na foto, os jogadores do Memphis Grizzlies Ja Morant e Jaren Jackson Jr. Covid-19 + Basquete é uma conta que não vai fechar - Área Restritiva
Memphis Grizzlies é a equipe com o menor valor de mercado segundo a revista Forbes, mas mesmo assim tem estrutura maior do que todos os times de Basquete no Brasil.
Foto: Brandon Dill/Getty Images

Protocolos de retorno do Basquete: FIBA e Federação Paulista de Basketball

Independente do momento em que estamos passando onde a falta de alinhamento de discursos e que nos levaria para uma discussão multi nível, algumas ações e decisões dos chefes de estado tem um impacto sem precedentes na vida do brasileiro, mas o problema fica maior ainda quando essas decisões permeiam o insano, com um toque de falta de conhecimento da atividade proposta.

FIBA Covid-19 – Basketball Restart Guidelines

Na última semana a Federação internacional de Basquetebol (FIBA) divulgou um documento, que segundo a entidade máxima do Basquete não é uma ordem para que as competições tenham o seu reinício, mas sim um guia para que as entidades se organizem da melhor maneira para o retorno.

Para a criação desse documento a foi criada uma comissão para a elaboração e tudo isso ainda seguiu determinações da organização mundial da saúde, sendo que o guia ainda expõe que as Confederações e Federações locais devem seguir as definições e determinações de cada país e seus órgãos competentes.

É um guia informativo, que contextualiza o que está acontecendo e ainda trás um checklist extenso para a organização da retomada das atividades, que incluem médicos treinados, controle de acesso e a criação de comitês para discutirem o retorno ou não das atividades, nesse comitê, se faz necessário representantes de diversas áreas, entre elas médicos e imprensa.

O documento foi feito em inglês, francês e espanhol e está disponível aqui e os outros documentos estão disponíveis aqui.

Na imagem um Banner da Federação Paulista de Basketball a imagem está disponível no Facebook da instituição. Covid-19 + Basquete é uma conta que não vai fechar - Área Restritiva
Versão prévia? Depois de críticas a Federação Paulista de Basketball promete nova versão do documento. Seria esse mais um ato amador do Basquete Brasileiro? Imagem: Divulgação/FPB

Já em São Paulo, a Federação Paulista de Basketball (FPB) publicou o que seria a versão Paulista do guia. De cara, uma chuva de críticas por atletas e a imprensa. Conforme apurado pelo Blog do Souza o guia é uma versão de ‘testes’ e será alterado de acordo com os clubes filiados, na publicação feita no site da entidade consta da informação, mas não é possível dizer se a informação foi feita antes ou depois das criticas.

Dentre as determinações da versão beta do Guia da FPB, os jogadores deveriam jogar de máscaras e 30% da lotação seria destinada para a torcida, sendo que 10% da lotação é para o visitante, ou seja, em um ginásio para 500 pessoas, 100 lugares são destinados a torcida local e 50 para a visitante.

O documento também isenta a FPB de responsabilidades sobre qualquer caso de Covid-19 entre os envolvidos, mas o mais interessante são as precauções da FPB para treinos: estes deverão ser em horários que evitem picos de pessoas, evitando assim horários de maior tráfego de pessoas, além de também evitarem aglomerações com mais de 3 pessoas.

As precauções da FPB sãos as mesmas da FIBA, certo? Pelo menos deveriam ser, já que estamos falando do mesmo esporte.

O que acontece no Brasil, fora das federações

O governo de Santa Catarina, em uma das ações de flexibilização das atividades no estado, liberaram as atividades ao ar livre, entre elas treinos e práticas esportivas que incluem o Basquetebol, mas curiosamente o Basquete foi liberado por ser considerado um esporte de não contato, lembrando que para a prática os treinos e jogos devem ter no máximo 4 pessoas.

Aparentemente o governo de Santa Catarina nunca assistiu uma partida de Basquete, ou talvez só conheça os arremessos de três pontos do Stephen Curry nos highlights da NBA.

As informações sobre o decreto estão disponíveis e atualizadas de acordo com publicação no site do governo de Santa Catarina e foi publicada no Diário Oficial – Número: 21.256, podendo ser consultado aqui. O autor da portaria 275 de 27/04/2020 foi o Secretário de Estado da Saúde, Helton de Souza Zeferino.

Como o Basquete Brasileiro fica no meio disso?

Espero que até aqui você ainda esteja pensando que o Memphis Grizzlies valer mais de um bilhão de dólares, mas mesmo assim tenha lido tudo e acompanhado o raciocínio desse texto.

Se pegarmos a maior competição nacional de Basquete, temos um grande exemplo do que poderia ter acontecido e o estudo dos cenários, independente das críticas, erros e acertos, o NBB fez o mais perto do que o Guia da FIBA previu.

Em ações tomadas muito antes do documento da FIBA, a Liga Nacional de Basquete criou uma comissão multidisciplinar, fazia suas reuniões semanais, conforme Sergio Domenici explicou em entrevista exclusiva para o Área, e depois de examinar os cenários em decisão unânime optaram por encerrar o campeonato (você pode ler mais sobre aqui).

Já CBB suspendeu o início do campeonato brasileiro, assim como a LBF depois de uma rodada do campeonato feminino.

Mas em São Paulo e provavelmente em outros estados brasileiros as discussões para o retorno do Basquete acontecem, mas será que alguém pensou se é realmente possível recomeçar o Basquete em meio aos números do covid-19?

Na foto, o centro de treinamento do Memphis Grizzlies, é uma quadra e meia, com a metade posta na lateral da quadra inteira, formando um 'V'. Covid-19 + Basquete é uma conta que não vai fechar - Área Restritiva
O Centro de treinamento do Memphis Grizzlies, na verdade só as quadras, são idênticas as que os brasileiros jogam, certo?
Foto: Memphis Grizzlies/NBAE

Vamos retomar o raciocínio do Grizzlies, a franquia da NBA que é a mais “pobre”, tem um ginásio só para a sua equipe treinar. Quantos clubes no Brasil dispõem de um ginásio só para eles? Só para a equipe adulta, para poder pensar em organizar seus treinos no melhor horário para evitarem aglomerações no espaço entre o clube e a casa do atleta?

Imagino que a sua resposta não seja muito diferente da que a redação do Área e diversos atletas e jornalistas tem nesse momento, agora pense nisso na base. Quando pensamos no Basquete de Base, os técnicos são profissionais que atuam em outras áreas profissionais e que marcam seus treinos no contraturno escolar de acordo com a disponibilidade de ginásio e a agenda do técnico.

Geralmente no meio para o final da tarde, para dar tempo do atleta chegar em casa almoçar e ir para o clube, quando existe essa possibilidade, porque algumas vezes o garoto ou garota saem da escola direto para o clube, treinam e acabam indo embora pegando o começo do horário de pico.

Na sugestão não oficial da FPB os treinos devem acontecer em horários de menor fluxo em todos os sentidos, fora e dentro do clube para evitar o contágio. Por si só isso é possível?

Testes, médicos, equipe multidisciplinar, vestiários, uniformes, roupas para chegar e para sair, máscara, distância entre pessoas, tudo isso é possível na nossa realidade?

Se a sua resposta for sim, por favor, comece a ler novamente o texto, depois o Guia da FIBA e nos traga a solução, que nesse momento ninguém conhece. Enquanto isso sugerimos aqui que os atletas continuem em casa, seguros e assistindo os VT’s dos jogos de Basquete, assim como estudando o jogo da forma que lhe for possível. Já que algumas crianças não tem acesso a TV’s por assinatura e internet, talvez alguns responsáveis não leiam esse texto por também não terem acesso à internet e por isso encerro a minha escrita por aqui, porque cada vez mais que penso no assunto vejo que a solução continua mais distante e o Basquete tem que ser a menor das preocupações por mais que seja a maior das minhas paixões.

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