Martin Luther King, Malcolm X, John Kennedy, Bill Russell, Wilt Chamberlain e NBA. O que eles têm em comum? Entenda!

Em “Basquete, coturnos e canetas”, o leitor fará uma verdadeira viagem no tempo; da fundação da maior liga de basquete do mundo e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo hippie de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: um país em chamas e como Martin Luther King, Jr. influenciou a NBA e seus jogadores.

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O PAÍS

Em 1963 a luta pelos direitos civis ganharia um marco dos mais icônicos na história humana: a Marcha sobre Washington. O protesto pacífico liderado por Martin Luther King, Jr. reuniu mais de 250.000 pessoas (maioria negra) para protestar por liberdade e trabalho no Capitólio, próximo à Casa Branca.

Foi nesse protesto que MLK discursou o famoso “Eu tenho um sonho”. A marcha também contou com a presença de muitas celebridades como Marlon Brando, Sammy Davis Jr., Bob Dylan (que cantou no evento), Jackie Robinson (MLB) e Bill Russell (NBA), entre outros.

Bill Russell (no lado esquerdo) presente na Marcha sobre Washington, 1963.

Após a Marcha, os líderes da NAACP foram à Casa Branca para uma reunião com o presidente John F. Kennedy, que era simpatizante e advogava em favor da comunidade negra. Kennedy, apesar de temer a violência, acreditava que o sucesso do evento facilitaria a aprovação, pelo congresso, de sua pasta de leis pela igualdade de direitos.

Entretanto, JFK não conseguiu ver os resultados de sua agenda. O presidente foi assassinado menos de três meses após a marcha, durante o desfile presidencial que o apresentava a Dallas, no Texas. Até hoje muitas questões são levantadas sobre a morte de JFK: o assassino (ou os assassinos) agiu sozinho? Foi o próprio governo? Foi a máfia? Os supremacistas brancos? Se Kennedy não tivesse sido assassinado, MLK também viveria? A Guerra do Vietnã teria ido tão longe?

Na foto, uma imagem de protestos nos Estados Unidos. Basquete, coturnos e canetas: USA em chamas e como Martin Luther King influenciou a NBA - Área Restritiva
Protestante anti-Kennedy segura placa com os dizeres “Vote na direita, vote nos brancos; qualquer um, menos os Kennedy’s da NAACP”.

Todas essas perguntas formam um grande “E SE…” na mente, mas o assassinato de Kennedy não seria o único a impactar a década de 1960 e transformar a história para sempre.

Martin Luther King Jr. e Malcolm X

Nomes consagrados na história da luta pelos direitos civis, Martin e Malcolm acreditavam em meios diferentes para alcançar o mesmo fim. A influência batista de seu pai e pastor, Michael Sir (o nome de nascimento de Martin é Michael), sua excelente educação e experiência pastoral o guiaram para o pacifismo.

Já Malcolm teve uma infância mais dura. A família, natural do Nebraska, teve que se mudar para o Wisconsin depois de sofrer ameaças da Klu-Klux-Klan; já no novo estado, a casa da família foi queimada; e, aos seis anos de idade, Malcolm perdeu o pai em um acidente suspeito. Após a mãe sofrer um colapso nervoso e ser internada em um hospital psiquiátrico, Malcolm foi para a adoção.

Malcolm também era excelente aluno, mas deixou a escola depois que um professor disse que “o Direito (sonho de Malcolm, na época) não é para negros”. Ele se envolveu com roubos, tráfico e apostas até ser preso. Todo esse pano de fundo resultou numa filosofia separatista e disposta a usar a violência, caso necessário.

Na foto Martin Luther King e Malcolm X rindo em um encontro dos dois nos Estados Unidos. Basquete, coturnos e canetas: USA em chamas e como Martin Luther King influenciou a NBA - Área Restritiva
Foto: MuslimMatters.org

Martin e Malcolm não eram rivais. Apesar de não serem próximos e até discordarem publicamente, os dois reconheciam a importância da luta de cada um. Quem não gostava de nenhum deles era o governo estadunidense e os supremacistas brancos. O diretor do FBI, J. Edgar Hoover não media palavras para insultar MLK, que foi preso por protestar em 1963 e recebeu uma carta do FBI indicando que deveria suicidar-se.

Malcolm X foi assassinado aos 39 anos, em 1965, quando discursava para cerca de 400 pessoas na Organização da União de afro-americanos. X foi atingido por 16 tiros na frente de sua esposa e filhos. Ele já sofria ameaças de morte há anos por parte de membros de seu ex-grupo Islã.

Martin Luther King, Jr. foi assassinado em 1968, também aos 39 anos. Ele estava em Memphis para apoiar grevistas negros e foi alvejado com um tiro no rosto, na sacada do hotel em que estava hospedado. King era vigiado e ameaçado pela CIA e FBI, que o acusavam de ser comunista pelo seu posicionamento contra a guerra do Vietnã, e sua morte ainda é estudo de teóricos da conspiração.

As duas mortes resultaram em protestos ainda maiores e mais violentos nos Estados Unidos. Um mês após a morte de Malcolm X, pessoas protestavam pacificamente contra a morte de um homem negro pelas mãos de um policial branco, quando policiais os impediram de continuar e os agrediram. 12 pessoas foram hospitalizadas.

Dois meses depois da morte de King, Robert Kennedy, irmão do falecido presidente e procurador geral dos EUA, também foi assassinado. Ele era um aliado na luta dos negros e candidato à presidência.

Todas essas mortes de líderes tão queridos e importantes, em um espaço de tempo tão curto, deixaram os estadunidenses à flor da pele. Mais de cem cidades nos Estados Unidos presenciaram protestos depois do assassinato de Martin Luther King, Jr. Quarteirões inteiros foram destruídos e os protestos chegaram a durar mais de um ano. Os Estados Unidos jamais seriam o mesmo. E a NBA também não.

A NBA

A NBA já era dominada pelos negros na época. Como visto antes, as maiores estrelas eram Bill Russell e Wilt Chamberlain, os dois protagonizavam a maior rivalidade do século. Russell, além de jogador, era, ao mesmo tempo, técnico do Celtics (ele ficou com o cargo após a aposentadoria de Red Auerbach). Ele também já era um ativista influente; em 1967, ele participou de uma das reuniões mais importantes no meio esportivo: a Cleveland Summit.

Cleveland Summit reuniu em uma sala alguns dos maiores esportistas negros da história; entre eles, Bill Russell, Muhammad Ali, Jim Brown e Lew Alcindor. A reunião foi feita para apoiar Cassius Clay, que havia se convertido ao Islã, mudado o nome para Muhammad Ali e se recusado a servir na Guerra do Vietnã. Todas essas decisões fizeram de Ali um inimigo odiado – e vigiado pela Segurança Nacional, assim como Luther King -, ele perdeu seu cinturão e foi proibido de lutar por mais de três anos.

Na foto, personalidades de diversas áreas, ativistas do direito civil nos Estados Unidos, Basquete, coturnos e canetas: USA em chamas e como Martin Luther King influenciou a NBA - Área Restritiva
Cleveland Summit. À frente, da esquerda para a direita: Bill Russell, Muhammad Ali, Jim Brown e Lew Alcindor. Foto: Robert Abbott Sengstacke/Getty Images

Em 1968, o primeiro jogo equivalente às Finais de Conferência da NBA, que colocaria frente à frente Bill Russell e Wilt Chamberlain, aconteceria em 5 de abril. Na véspera, no entanto, Martin Luther King Jr., foi assassinado. O maior líder, a maior voz, o símbolo máximo da comunidade negra estava morto.

A NBA, assim como toda a população, não sabia o que fazer. Tudo já estava pronto, mas os ânimos dos jogadores estavam abalados. Russell conversou com Chamberlain e os times abriram uma votação para decidir se jogariam ou não; tanto Bill quanto Wilt votaram para não jogar, mas a maioria decidiu continuar e o jogo aconteceu na data marcada.

O Celtics de Russell venceu novamente o Philadelphia de Chamberlain. Para os dois times, que tinham mais negros que brancos no elenco, foi um jogo doloroso, cruel, mas necessário. As pessoas precisavam ver seus jogadores num momento tão difícil; e, mais ainda, precisavam de novas vozes para continuar o trabalho que King havia começado.

Depois, os dois amigos-rivais foram ao funeral de MLK, que reuniu milhares de pessoas em Atlanta. A partir desse dia, Chamberlain mudaria muitos de seus conceitos. Em uma entrevista, alguns meses depois, Chamberlain disse: Eu me perguntava o que poderia fazer para ajudar os estadunidenses, o meu povo (os negros), a chegar ao topo da montanha e ver a terra prometida que o Dr. King tanto falava.”

Milhares de pessoas acompanharam o funeral de Martin Luther King Jr. em Atlanta.

Os jogos seguintes foram adiados, não só na NBA, mas em outras ligas. Cinco dias depois, os jogos voltaram e Boston viu o 76ers acumularem uma vantagem de 3-1. Heroicamente, o Celtics virou a série (foi a primeira vez na história que isso aconteceu) e foi para as Finais enfrentar o Los Angeles Lakers – e vencer mais um título em cima da franquia de Elgin Baylor.

Martin Luther King Day

Anualmente, na terceira segunda-feira do mês de janeiro é celebrado o dia de Martin Luther King, Jr. Se você já é um fã antigo da NBA, sabe que essa data é muito especial para a Liga. Para homenagear o reverendo, todos os times promovem eventos especiais, rodas de conversas e reuniões para jogadores, diretorias e comunidade.

Além de toda a atmosfera dos jogos ser especial, com uniformes e rituais pré-jogo que remetem à obra do ativista, o jogo principal é sempre um clássico. Em uma liga de maioria negra, é mais que necessário a lembrança e a repetição dos discursos de um líder atemporal.

Bill Russell. Novamente.

O Celtics era baseado em uma das cidades mais racistas dos EUA. Mas, ainda assim, foi a primeira franquia a draftar um negro e a ter cinco negros em jogo; foi a primeira franquia a ter um jogador-técnico – e campeão – negro e é uma franquia que sempre prezou pela integração. Todas essas “conquistas” foram causadas e/ou influenciadas por Bill Russell.

O pivô sempre defendeu o garrafão do Celtics como ninguém; e ninguém, no meio esportivo, defendeu os direitos e a vida como ele. Fosse nos protestos pelos direitos civis dos negros, fosse contra a guerra do Vietnã, qualquer que fosse a luta, Russell sempre esteve lá. Por isso, recebeu tantos prêmios por seus trabalhos dentro e fora de quadra, como a Medalha da Liberdade, recebida do presidente Obama.

O presidente Barack Obama entrega a Medalha da Liberdade a Bill Russell, 2011. Fonte: Andrew Harrer/Bloomberg News

Bill Russell é a epítome do que deveria ser todo ser humano. Altruísta, solidário, preocupado em melhorar o mundo para os outros. Tudo o que Russell fez em sua vida abriu portas para pessoas não só na NBA, não só no esporte. Esse velhinho fofo levou nas costas uma carga que jamais poderá ser mensurada.

Nos despedimos desse texto com a apresentação emocionante de Kobe Bryant para Bill Russell, que receberia seu Arthur Ashe Award (Prêmio anual pela coragem e serviços humanitários da ESPY/ESPN), em 2019.

“Saúdem comigo meu mentor, amigo e inspiração para todos nós, Bill Russell…

… Bill, em nome de todos os atletas nesta sala, e todos nós que tentamos seguir suas pegadas, obrigado. Obrigado por ser um modelo, um mentor; obrigado pela risada que estará em nossos ouvidos por anos; obrigado pela sua coragem, mas, mais que tudo, obrigado por nos mostrar como o interior das pessoas pode, de fato, mudar o mundo.”

Gostou desse? Da uma olhada nos capítulos anteriores da série Basquete, coturnos e canetas

Basquete, Coturnos e Canetas: Quando jogadores são mais que atletas

Basquete, Coturnos e Canetas: A entrada dos negros na NBA

Basquete, Coturnos e Canetas: Bill Russell

Basquete, coturnos e canetas: Elgin Baylor, Oscar Robertson e os anos 1960

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