Em “Basquete, Coturnos e Canetas”, o leitor fará uma verdadeira viagem no tempo; da fundação da maior liga de basquete do mundo e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo hippie de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: Manute Bol e o Sudão do Sul na NBA.

Manute Bol não deve ser um nome estranho para o leitor. Certamente lembrado por sua altura, o pivô ainda é o segundo atleta mais alto a jogar na NBA (2,31). Quem nunca viu a cômica foto de Manute Bol ao lado de seu companheiro de equipe, Muggsy Bogues (1,60m), o jogador mais baixo da história da liga?

Em 2019 o pivô voltou a ser assunto quando um de seus filhos, Bol Bol, se inscreveu no draft. Ele foi selecionado pelo Miami Heat e, logo depois, trocado para o Denver Nuggets (onde  fez ótima partida de estréia na NBA Bubble). Manute não foi um jogador excepcional, não fez números estupendos e nem foi campeão da NBA, mas fazer uma série sobre jogadores que foram/são mais que atletas e não colocar Manute Bol seria um erro imperdoável. Contudo, para entender por que ele está aqui, precisamos saber de onde ele veio.

O SUDÃO DE MANUTE BOL

Manute Bol nasceu no meio de uma guerra civil, em uma pequena e pobre vila no então unificado Sudão, em 1962. Sua família, assim como a maioria de sua tribo, era muito alta: mãe, pai, irmã, todos tinham mais de 2 metros de altura.

A guerra em questão era a Primeira Guerra civil sudanesa (1955-1972) que começou assim que o Sudão deixou de ser uma colônia e causou cerca de 500 mil mortes ao longo de seus quase 17 anos de duração.

As motivações da guerra foram várias: conflitos étnicos, divisão geográfica, religião (o Sul cristão e animista contra o Norte Islã) e questões administrativas eram alguns dos fatores que levaram o Sul a querer separação. A maioria dos confrontos bélicos envolvia os Nuer e os Dinka, as duas maiores etnias do Sudão. Um acordo de paz foi selado em 1972, dando certa autonomia religiosa e cultural ao Sul, mas serviu apenas como uma breve pausa para uma guerra ainda maior.

A Segunda Guerra civil sudanesa iniciou em 1983. Desta vez, além de todos os outros motivos da guerra anterior, adicionou-se a briga pelo petróleo: o Sudão do Sul tem a terceira maior reserva de petróleo da África Sub-Saariana. Como resultado (além das vidas perdidas), há um país enfraquecido, dividido, pobre em todos os aspectos e suscetível a todo tipo de violência.

Manute Bol chega aos Estados Unidos…

Ao mesmo tempo, o técnico Don Feeley foi ao Sudão para treinar e dar clínicas para a Seleção de Basquete do país, descobriu Bol e o convenceu a ir jogar nos EUA. Foi um momento mais que propício para o jovem Manute Bol deixar a pátria-mãe: ele poderia ter sido um dos mais de 2 milhões de civis mortos pela fome e violência durante os 21 anos de guerra.

Primeiramente, Bol deveria jogar pela Universidade de Cleveland State, mas vários fatores o impediram: ele não tinha uma certidão de nascimento e muitos acreditavam que ele era bem mais velho; seu passaporte tinha informações contraditórias; ele não falava inglês; e não teve muito apoio da Universidade, que, eventualmente, foi suspensa por dois anos por não oferecer assistência financeira a Bol e outros jovens africanos.

… e à NBA

Mesmo assim, Bol foi para a NBA. Ele se inscreveu no Draft mais cedo do que deveria porque queria ganhar dinheiro suficiente para tirar sua irmã do Sudão em guerra. 31ª escolha do Draft de 1985, pelo Washington Bullets, Manute ainda detém o recorde de mais blocks entre calouros; foi também no Bullets que ele jogou com Muggsy Bogues em 1987. Bol sempre teve habilidades ofensivas muito limitadas por conta do seu porte físico, mas defensivamente era um monstro com a maior envergadura da história, tanto que é o único jogador a ter mais blocks que pontos na carreira. Ele liderou a liga em blocks em 1986 e 1989 e foi Segundo time de Defesa em 1986.

Mas foi fora de quadra que Manute deixou seu maior legado. Ainda na NBA e muito mais após sua aposentadoria, Bol usou sua imagem e seus ganhos para ajudar os sudaneses, principalmente crianças. A maior parte de seu salário durante toda a carreira (cerca de 3,5 milhões) foi usada para construir hospitais e manter organizações de caridade, como a Ring True Foundation – criada pelo próprio Manute. Ele também participava de variados eventos, programas e jogos para arrecadar dinheiro para a caridade.

Manute visitava o Sudão regularmente e em uma dessas visitas se viu em uma situação complicada. Ele era cristão e o Sudão, mulçumano. Depois de recusar o posto de ministro de esportes (o governo o obrigava a se converter ao Islã), bombardeios aconteceram em Karthoum, capital do Sudão, ordenados pelo presidente Bill Clinton, dos EUA. Manute foi acusado de traição e espionagem e impedido de sair do país. Ele precisou, então, da ajuda de políticos (incluindo o senador Joseph Lieberman) para conseguir o dinheiro para passagens e negociações com o governo sudanês. Por fim, Bol e sua família conseguiram sair do país depois de 6 meses, novamente com status de refugiados.

Manute Bol em uma marcha pela liberdade do Sudão, 2006.

Manute viveu toda a sua vida sonhando com um país pacífico e feliz, mas não viveu tanto para isso. Ele faleceu em 2010, aos 47 anos, de insuficiência renal aguda. Manute não tinha plano de saúde, seu aluguel era pago pela Caridade Católica pois ele já não tinha nenhum dinheiro; gastou tudo o que tinha tentando melhorar a vida das pessoas no Sudão, o que, para ele, era uma obrigação. “Deus me deu tudo isso”; e Bol retribuiu. Seus feitos ajudaram milhares de crianças sudanesas e sua influência ajudou a formar até alguns jovens que conhecemos e veremos mais à frente.

O SUDÃO DO SUL INDEPENDENTE

Em 2005 a Segunda guerra civil sudanesa terminou e, em 2011, o Sudão do Sul se tornou independente através de um referendo com apoio de 99% da população. No entanto, a comemoração da independência durou pouco, mais uma vez o povo se viu no meio de um fogo cruzado e, agora, era alvejado pelo próprio governo.

Salva Kiir se tornou o primeiro presidente do Sudão do Sul em 2011 e continua lá até hoje! Depois de dispensar seu deputado Riek Machar – e metade de seu gabinete – acusando-o de tramar um golpe de estado, Kiir deu início a mais uma guerra civil. Agora o exército do governo de Kiir e o exército da oposição (Machar) lutavam pelo território sul-sudanês. Acordos de paz promovidos pela ONU eram quebrados um após o outro, ao passo que a violência alcançava números absurdos e quem tentasse escapar era assassinado.

O país tem poucas estradas, menos da metade da população tem água potável, apenas 5% tem energia elétrica; menos de 30% sabe ler e escrever (a primeira biblioteca pública do país foi inaugurada em 2019!); e o país declarou fome em 2017.Mas o governo gasta mais de 50% do dinheiro do país com armas e exército. Além do controle das mídias (apenas 7% da população tem acesso à internet), os jornalistas não são benquistos no país: só nos primeiros 6 meses de 2015, 7 jornalistas foram assassinados após ameaças públicas do presidente Kiir.

O presidente Salva Kiir dificilmente é visto sem o chapéu preto que ganhou do ex-presidente Bush.

Assim, o exército do governo mata seu próprio povo ao não ajudá-lo nem deixar que recebam ajuda. Diversos ataques a organizações internacionais de caridade aconteceram ao longo do tempo, estuprando e matando trabalhadores, roubando estoques de comida que valiam milhões.

Os dois exércitos (governo e oposição) usam crianças como soldados – foram mais de 20 mil ao longo dos anos – e mulheres como forma de pagamento. Estupro em massa é uma coisa normal no Sudão do Sul. Até 2016, 70% das mulheres em abrigos foram vítimas de estupro (individual e coletivo) e 25% das vítimas eram crianças de até 7 anos. Quase todos os estupradores eram soldados e policiais.

Em fevereiro de 2020 um novo acordo de paz foi assinado e ainda está em voga, mas em maio um novo ataque aconteceu. Quase 300 pessoas foram mortas (incluindo Médicos sem fronteiras) num conflito entre duas etnias do país, que ainda enfrenta fome e violência mesmo após o “fim” da guerra civil que matou cerca de 380 mil pessoas.

O SUDÃO DO SUL NA NBA

Como dito lá no início, Manute Bol deixou um legado não só para o Sudão, mas para a NBA. Alguns jogadores foram diretamente apadrinhados por ele e outros estão seguindo os seus passos. Veja a lista abaixo:

Luol Deng

Luol Deng nasceu em 1985 no Sudão e sua família buscou refúgio no Egito, a fim de escapar da Segunda Guerra civil sudanesa. No Egito, Luol conheceu Manute Bol, que ensinou Deng e o irmão a jogar basquete. Posteriormente, a família de Deng conseguiu asilo político em Londres, onde o garoto começou a jogar futebol e basquete. Aos 14 anos, Luol se mudou para os EUA e iniciou uma ótima carreira colegial, jogando com a Duke Blue Devils.

Na NBA, o ala jogou pelo Chicago Bulls durante 10 anos (onde foi All-Star 2 vezes) e passou por outros times, como Cavaliers, Heat, Lakers e Timberwolves. Em 2019, ele voltou ao Chicago com o propósito de se aposentar no time que primeiro o acolheu.

Ainda que tivesse cidadania britânica, Luol Deng nunca esqueceu suas origens. O ex-jogador é voz ativa em ínumeros programas de caridade, como o “Garotos perdidos do Sudão”, programas de alimentação, educação e hospitais; além de ter viajado com o Basquete sem Fronteiras, da NBA, e ter sua própria fundação. Luol também construiu uma quadra e a deu o nome de Manute Bol. Por suas ações dentro e, principalmente, fora de quadra, Luol Deng ganhou 2 troféus (que o honram pelos serviços de caridade) e o posto de jogador favorito do ex-presidente Barack Obama.

Miami Heat's Luol Deng Visits Barack Obama at White House
Luol Deng e o presidente Obama em reunião para tratar sobre a situação do Sudão do Sul, 2015. Fonte: Instagram/Casa Branca

“Meu irmão mais velho jogou na Europa, outro em UCoon, ele se formou em Ciência Política; tenho amigos que jogam profissionalmente na Ásia e Europa. Só um mês de Manute Bol! É incrível quantas vidas ele tocou. Inacreditável.”

Bol Bol

O filho de Manute, Bol Manute Bol, era um dos prospectos mais interessantes do Draft de 2019 e cotado para o top 15, mas caiu para o segundo round por conta de uma lesão no pé. Bol Bol afirmou que quer fazer com que todos os times que o deixaram passar se arrependam; aliás, em sua estréia na NBA Bubble ele deixou isso bem claro. Ele fez 16 pontos, 10 rebotes e 5 tocos, também arremessando do perímetro, durante os 31 minutos de sua partida. Bol levou os fãs à loucura com a performance, e o técnico e companheiros de equipe certamente ficaram felizes com o garoto de 2,18m.

Bol Bol começou a treinar com o pai e se tornou um jogador com mais potencial que ele. O jovem Bol tem mais habilidades de drible e arremesso de três pontos, bem como um sistema que pode o manter saudável por mais tempo. No entanto, Bol mantém os ensinamentos do pai em sua mente, e tem o desejo de continuar o trabalho humanitário que seu antecessor iniciou. “Com certeza voltarei ao Sudão, é o lugar em que eu nasci. Planejo um dia voltar e terminar tudo o que meu pai começou. Ele se importava mais com os outros que consigo mesmo, isso é algo que sempre lembrarei.” Disse Bol Bol em entrevista ao The Undefeated.

Wenyen Gabriel

Assim como Luol Deng, Wenyen Gabriel nasceu no Sudão e sua família buscou abrigo no Egito para evitar a Segunda Guerra civil sudanesa. Depois de dois anos no Egito, a família conseguiu, através da ONU, refúgio nos Estados Unidos. Em 2016, Gabriel era considerado um prospecto 5 estrelas, mas em 2018 não foi escolhido no Draft, assinando um contrato 2-way com o Sacramento Kings. Atualmente, o ala sudanês defende o Portland Trail-Blazers e também está na Bolha da NBA.

Recentemente uma história sobre a bondade de Gabriel veio à tona. O jogador certa vez usou um Uber para ir para casa e acabou esquecendo a carteira dentro do carro; o motorista procurou Gabriel a fim de devolver a carteira e não quis aceitar quando o jogador o recompensou com 100 dólares. Wenyen, no entanto, sabendo que o motorista faz parte do grupo de risco da COVID-19, deu-lhe 2.500 dólares para que ele não precisasse dirigir em tempos de pandemia. Apesar de Wenyen pedir discrição, o motorista acabou contando a história e os dois viraram matéria.

Wenyen frequentemente usa suas redes sociais, principalmente o Instagram, para falar sobre causas sociais, como o movimento negro e os problemas no Sudão do Sul.

Deng Adel

Mais um refugiado da guerra, Deng Adel e sua família encontraram abrigo na Austrália. Lá, ele começou a jogar basquete aos 14 anos e conseguiu uma bolsa para estudar nos Estados Unidos e jogar pela Universidade de Louisville. Deng jogou na G-League e na NBA, mesmo que em poucos jogos na NBA, pelo Toronto Raptors (pré-temporada), Cleveland Cavaliers (um único jogo) e, atualmente, atua no Hawks da NBL (Austrália).

Thon Maker

Semelhantemente a Deng Adel, Thon Maker encontrou abrigo na Austrália ao fugir da Guerra civil sudanesa. Depois de ser descoberto e levado para jogar nos Estados Unidos, Thon foi a décima escolha do Draft de 2016 (Milwaukee) e jogou pelo Bucks até ano passado, quando foi trocado para o Detroit Pistons.

The Luol Deng Foundation
Fonte: Luol Deng Foundation

Esses jogadores são exceções. Vidas transformadas através do basquete, com uma semente plantada por Manute Bol há mais de 30 anos. Mas o Sudão do Sul é um país que precisa de ajuda em praticamente todos os setores e esses jogadores estão fazendo algo para transformar o lugar em que nasceram. O esporte muda vidas, educa, cria novos horizontes. Façamos nossa parte.

Gostou desse? Dá uma olhada nos capítulos anteriores da série Basquete, coturnos e canetas

Basquete, Coturnos e Canetas: Quando jogadores são mais que atletas

A entrada dos negros na NBA

Basquete, Coturnos e Canetas: Bill Russell

Elgin Baylor, Oscar Robertson e os anos 1960

USA em chamas e como Martin Luther King influenciou a NBA

Bill Bradley, Bill Walton e a NBA que protesta

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