Em “Basquete, Coturnos e Canetas”, viajaremos no tempo para ligar a NBA a eventos históricos dos anos 40 (década da fundação da NBA) até hoje. Da fundação da maior liga de basquete do mundo e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo “hippie” de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: a entrada dos negros na NBA e a luta contra o racismo.

HOMENS PRETOS NÃO PODEM ENTERRAR

Atualmente mais de 80% dos jogadores na NBA são afrodescendentes, entretanto, a liga não tinha um jogador negro sequer quando foi criada. Nem em seus primeiros três anos de existência. Zero.

Isso, porque os Estados Unidos ainda eram segregados racialmente nos anos 1940. Pretos não podiam estudar nas mesmas escolas nem frequentar os mesmos lugares que os brancos; as “pessoas de cor” eram tratadas como inferiores em tudo, não tinham direito ao voto, eram obrigados a dar espaço para os brancos em todos os lugares, inclusive nos esportes.

Para os brancos, os atletas negros não eram fisicamente capazes de jogar em alto nível, nem mentalmente dignos de serem campeões, por isso, não teriam espaço nos times profissionais.

No Beisebol, esporte favorito dos Estados Unidos à época, os negros eram impedidos de jogar na Major League Baseball e, sendo esta a maior Liga esportiva do país, essa segregação era refletida nas outras ligas, como a NBA.

O basquete profissional ainda não tinha glamour nem sucesso, era um esporte secundário para preencher as arenas vazias, mas não preenchia. O esporte era chato, o jogo não tinha dinamismo, nem emoção, os fãs não gostavam de ver um time passando a bola de um lado para o outro até que desse vontade de atacar a cesta (o cronômetro de 24 segundos ainda não existia).

O basquete universitário, também segregado, ainda alimentava esperanças de melhoria técnica; esperança materializada em George Mikan, um pivô branco de 2,08 que colecionou títulos e prêmios individuais ao longo de seus quatro anos na Universidade DePaul.

Em 1946, Mikan assinou seu primeiro contrato com o Chicago American Gears, da NBL, time que acabaria fechando as portas na temporada seguinte, distribuindo os jogadores para os times restantes. George Mikan foi para o Minneapolis Lakers começar a escrever uma das grandes histórias do basquete mundial.

Na foto, George Mikan, posando em click para a Universidade de DePaul, ele está segurando uma bola com o braço elevado acima da cabeça com a bola debaixo da cesta. Basquete, Coturnos e Canetas: Quando jogadores são mais que atletas - Área Restritiva
Foto: Divulgação

A BARREIRA

Um nome extremamente importante para a história do esporte é o de Jackie Robinson, ex-militar e jogador de beisebol das “Negro Leagues”, competições que tiveram sucesso e relevância, apesar dos muitos obstáculos.

Em meados de 1945 esses obstáculos começariam a ruir. As ondas de protestos pelos direitos civis iniciavam nos Estados Unidos. Então, uma lei contra a discriminação racial na contratação de empregados era aprovada em Nova Iorque e o primeiro passo rumo à integração era dado: Jackie Robinson jogaria pelo Brooklin Dodgers, da MLB.

Na foto, Jackie Robinson, se preparando para rebater uma bola pelo Dodgers na MLB. Basquete, Coturnos e Canetas: Quando jogadores são mais que atletas - Área Restritiva
Foto: Divulgação

A barreira de cor estava quebrada na maior liga esportiva dos EUA. Depois de Robinson, em 1947, outros jogadores negros foram contratados e as ligas foram integradas. No entanto, essa não era uma realidade no basquete.

Não era tão difícil ver negros no basquete universitário, apesar da proibição nas ligas profissionais. Porém, esses jogadores eram alvo de racismo no mais extremo nível. Faltas violentas não marcadas, exclusão nas jogadas, agressões verbais e físicas por parte de jogadores e torcida são só alguns dos muitos relatos.

Para que pudessem praticar o esporte com o mínimo de dignidade, os negros tinham um time de basquete só para eles. O Savoy Big Five era um time “all-black” que surgiu em 1926 e jogava amistosos país afora contra times brancos colegiais e profissionais. Mas foi com a chegada de Abe Saperstein que o time mudou de nome e patamar.

O AMISTOSO MAIS IMPORTANTE DO SÉCULO

Agora o nome era Harlem Globetrotters – mesmo não sediado no Harlem, Saperstein escolheu este nome por que o Harlem era o epicentro da cultura negra; cultura que o Globetrotters incorporou ao seu estilo de jogo. Era um time extremamente competitivo e habilidoso que chegou a manter um recorde de 103 vitórias seguidas e títulos de torneios integrados.

Com movimentos divertidos, jogadas plásticas e lances que jogadores brancos jamais teriam a ousadia de tentar na liga profissional, o cômico – e capaz – Globetrotters ganhou fãs e a chance de enfrentar o campeão da NBL em 1948, Minneapolis Lakers, e o maior jogador em atividade na época, George Mikan.

Na foto, uma disputa de bola em uma partida do Harlem Globetrotters e Minneapolis Lakers. Basquete, Coturnos e Canetas: Quando jogadores são mais que atletas - Área Restritiva
Foto: AP Photo/Ed Maloney.

O jogo aconteceu em Chicago, num ginásio lotado por quase 18 mil pessoas e pouquíssimas delas imaginavam que o Lakers perderia a partida. Foi exatamente o que aconteceu.

George Mikan fez o que quis contra Reece Tatum, a estrela do Globetrotters, mas o Harlem mudou de estratégia, foi forte o suficiente para empatar a partida nos minutos finais e Ermer Robinson capitalizar o último arremesso que derrotou o todo poderoso Lakers.

Ei! Dá uma olhadinha nos meus textos, eles estão todos aqui.

O PÓS-JOGO

O impacto social desse jogo não foi imediato, mas as pessoas perceberam que o estilo explosivo e divertido do basquete negro era muito mais legal; perceberam que os negros tinham, sim, capacidade física e mental de competir contra brancos, afinal, tinham vencido o time campeão e seu MVP.

Os empresários dos times também se interessaram pelos negros e, mesmo com a discordância da maioria, alguns times iniciaram conversas com os jogadores proibidos. O dono do NY Knicks, Ned Irish, viu que a melhor forma de lotar o Madison Square Garden era trazendo ao time o talento e a dinâmica dos jogadores negros.

Irish chegou a ameaçar deixar a liga se não conseguisse contratar Nat “Sweetwater” Clifton. Após muita discussão entre as diretorias e o atrevimento de alguns GM’s, a barreira de cor na NBA foi, finalmente, quebrada em 1950 (três anos depois da MLB).

Ned Irish conseguiu seu sonhado Nat Clifton; o ex-Globetrotter, era agora jogador do NY Knicks.

O Boston Celtics queria – digo, Red Auerbach queria  – escolher o ala Charles “Chuck” Cooper no Draft; persuadido por GM’s de outros times a não draftar um negro, Walter Brown, fundador e dono da franquia, respondeu:

“Eu não dou a mínima se ele é listrado, xadrez ou de bolinhas. Boston escolhe Charles Cooper, de Duquesne!”

O Washington Capitols, seguindo o exemplo do Celtics, também escolheu um negro: Earl Lloyd, que viria a ser o primeiro negro a entrar em quadra na NBA.

UMA LONGA JORNADA PELA FRENTE…

A barreira de cor estava extinta na NBA. E agora? Isso significava igualdade? Significava que os jogadores, brancos e pretos, receberiam as mesmas oportunidades e tratamento? Infelizmente, não.

Dos primeiros negros, como Lloyd, a nomes famosos que viriam depois, como Bill Russell, todos foram vítimas constantes do racismo. Lloyd relatou que fãs o cuspiam e xingavam; Cooper teve que dormir em estações de trem por que sua entrada não era permitida nos hotéis das cidades em que jogava.

Se um jogo de basquete já é naturalmente difícil (com contatos duros, correria e cansaço que por vezes testa o limite do corpo), imagine ter que jogar sabendo que você é odiado ali; sabendo que, mesmo que você ganhe o jogo, será rechaçado pela torcida adversária e até pela sua; sabendo que você não poderá ir naquele restaurante comemorar com os seus companheiros de time. Esse era o cenário da época e ele durou por tempo demais.

Mas a comunidade negra queria mudanças. Os anos 1950 seriam uma explosão de atos, protestos e boicotes nos Estados Unidos; além da ascensão de um jovem pastor em favor do movimento pelos direitos civis dos negros.

Ao mesmo tempo, os EUA participava da Guerra Fria e acionava seu exército em um dos eventos bélicos mais polêmicos da história: a Guerra do Vietnã.

O que isso tem a ver com a NBA? Você verá nos próximos capítulos.

N.A.* Agradecimentos:

Banner: Gabriel (@Prince_MVP);

Revisão: Vitor Camargo (@tmwarning)

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