Em “Basquete, Coturnos e Canetas”, o leitor fará uma verdadeira viagem no tempo; da fundação da NBA e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo “hippie” de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: O movimento pelos direitos civis dos negros e Bill Russell.

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Prólogo

1 de dezembro de 1955. Você está em um ônibus a caminho de casa. Depois de um dia de trabalho extenuante, ter um assento para cochilar pelos próximos trinta minutos é um leve consolo. Você coloca o chapéu no colo, enxuga o suor da testa e, encostando a cabeça na janela, fecha os olhos.

“Levante-se! Ou vou mandar que te prendam!” – uma voz furiosa afasta seus devaneios sobre comida. Relutantemente você abre os olhos.

O ônibus lotado está parado e o motorista está a alguns passos de distância, gritando com uma mulher negra.

– O que aconteceu? – você pergunta para o homem ao seu lado.

– Aquele senhor branco estava em pé e queria sentar. O motorista falou para os negros irem para os fundos pra dar lugar ao branco. Os outros foram, mas aquela mulher ali, não. – disse o companheiro, apontando para a mulher sentada.

– Quão cansada ela deve estar pra desobedecer o motorista?

A mulher continua teimando em não arredar o pé. Nem um centímetro para trás. O motorista chama a polícia, afinal, ela estava cometendo um crime, desobedecendo a lei. Dois policiais aparecem e a levam, enquanto você acompanha com olhos atônitos a mulher negra, de cabeça erguida, que estava cansada de ceder.

Na foto, Rosa Sparks, sentada no ônibus nos eventos descritos no textos. Basquete, Coturnos e Canetas: quando jogadores são mais que atletas - Área Restritiva
Foto: Getty Images

O ESTOPIM

O que você faria se realmente presenciasse o episódio acima? Não foi uma cena de filme ou série. A mulher tinha nome, Rosa Parks, e o que aconteceu com ela revoltou a comunidade negra de Montgomery, no sul dos Estados Unidos.

A prisão de Rosa por não dar lugar a um branco no ônibus se tornou um marco da luta pelos direitos civis pois, assim que souberam da notícia, alguns líderes da NAACP (National Association for the Advancement of Colored People), incluindo o jovem Martin Luther King, Jr., correram para o Alabama e iniciaram um boicote aos ônibus de Montgomery – o transporte era uma enorme fonte de lucro para a cidade.

O ato durou mais de um ano e resultou em uma lei que tornava inconstitucional a segregação racial nos transportes públicos de todo o país. Era um pequeno avanço, no entanto, a luta por igualdade ainda teria muitas complicações ao longo dos anos.

Ainda em 1955, mas do outro lado do globo, o presidente Einsenhower enviava soldados estadunidenses para lutar ao lado do Vietnã do Sul, contra os “Vietcongs” – do norte –  e seu aliado comunista, a União Soviética (mais uma consequência da Guerra Fria).

Ei! Da uma olhadinha nos meus textos aqui, os primeiros episódios dessa série estão lá!

ENQUANTO ISSO, NO BASQUETE…

1950 foi uma década cheia de mudanças. Foi a primeira temporada oficial como NBA e a primeira com jogadores negros vindos de Draft; em 1951 a linha do garrafão dobrou de tamanho (regra adotada devido a dominância de George Mikan próximo ao aro); em 1954 foi incorporado o cronômetro de 24 segundos; e, em 1955, foi instituído o prêmio de Most Valuable Player (Jogador Mais Valioso).

Liderada pelos “big men”, o jogo era centralizado nos pivôs e alas mais altos; eram eles quem levavam para casa as maiores conquistas – individuais e coletivas. Também foi a década da primeira dinastia da NBA: O Minneapolis Lakers foi para 5 Finais, sendo quatro consecutivas, e perdeu apenas 1 (aliás, foi o primeiro three-peat da história: 1952/53/54).

1955 também foi o ano em que Bill Russell venceu seu primeiro título, na Universidade de San Francisco – primeira Universidade a escalar três negros no time titular. No entanto, o racismo era gritante. Em uma das viagens do time universitário, em 1954, hotéis em Oklahoma City se recusaram a receber Russell e seus companheiros negros. Em solidariedade, o time inteiro recusou a estadia no hotel.

Apesar de tudo, Russell era o melhor defensor da época, liderou a USF a títulos colegiais e depois de não ganhar prêmios individuais por motivos obviamente racistas, o jovem decidiu que colocaria o time em primeiro lugar e não se importaria com glórias individuais.

EU NÃO SOU MELHOR QUE NINGUÉM, MAS NINGUÉM É MELHOR QUE EU

Se você “tomou distraído” e não sabe o porquê do nome Bill Russell ter surgido agora, deixe-me recapitular:

Willian Felton Russell. 2,08 de altura. Número 6, pivô do Boston Celtics. 11 títulos. 5 MVPs. 12 All-Stars. 2 títulos como técnico. Dezenas de recordes e conquistas.

Foto: Divulgação/NBAE

E, se você já conhece Bill Russell, sabe que a história dele não se resume, de forma alguma, a números e títulos, mesmo estes sendo grandiosos: Foram 13 anos na NBA e Russell foi para os Playoffs em todos os anos, vencendo 11 dos 17 títulos que o Boston Celtics ostenta.

Bill conquistou um legado ainda maior que as vitórias em quadra. Ele foi um dos pioneiros da representatividade dos atletas nos movimentos sociais. Nas palavras do sociólogo Harry Edwards, “Bill Russell foi o herdeiro da luta de Jackie Robinson. Ele é, provavelmente, o atleta mais intelectualmente brilhante que eu já conheci”. E não é exagero.

O maior campeão da NBA nunca foi do tipo egocêntrico, nunca gostou de ser o centro das atenções; na verdade, Russell evitava entrevistas, autógrafos para crianças e qualquer coisa que o aproximasse do posto de “ídolo acessível”. Isso o fez ser um jogador infame perante a mídia da época, mas isso não era nada que Bill já não tivesse experimentado antes.

Sendo negro, Bill era vítima de todo tipo de injúria, vindas até de sua própria torcida. Certa vez, depois de já ter conquistado vários títulos para o Celtics, Bill teve a própria casa vandalizada e pichada (chegaram a defecar na cama do atleta) por pessoas que não aceitavam que um negro pudesse ter uma boa casa em um bom bairro.

Mas o maior trunfo de Bill era não se deixar ser vítima. Quando ainda criança, sua mãe havia lhe dito: nunca se sinta pior que um branco; Russell levou o conselho durante toda a vida. Ele fazia o seu melhor, como pessoa e atleta, e revidava o racismo com um semblante estoico e até com pitadas de humor, mas nunca com violência.

Bill Russell foi o responsável por pavimentar o caminho de todos os negros que viriam após ele e, com seu jeito introspectivo, quebrou barreiras em solo americano e internacional. As viagens do pivô ao continente africano para conhecer suas raízes e levar o basquete às diversas cidades que visitou, foram inspiração para o que viria a ser o Basketball Without Borders (Basquete sem fronteiras), da NBA Global.

Russell sempre participou ativamente na luta pelos direitos civis, tendo um relacionamento próximo com a NAACP e Martin Luther King, Jr., participando de reuniões, como a Cleveland Summit, e protestos (ele estava presente quando MLK discursou o lendário “I have a dream”). E esse era só o começo de seu ativismo, que dura até hoje.

Dentro de Quadra

Todo bom jogador tem sua nêmesis, um arqui-rival à altura. Magic Johnson tinha Larry Bird, LeBron James tem Stephen Curry; Bill Russell tinha Wilt Chamberlain. O pivô celta já dominava a NBA há três anos – tendo vencido dois campeonatos – quando, em 1959, o Philadelphia Warriors draftou Chamberlain usando uma escolha territorial.

Ao final da temporada de 1959/60, Chamberlain foi nomeado MVP da temporada regular, MVP do All-star, Rookie of the Year (Calouro do Ano) e Primeiro Time All-NBA. Jogando na mesma posição que Russell, os dois se enfrentariam muitas vezes ao longo dos anos numa das maiores rivalidades do mundo esportivo.

Um embate que colocava frente a frente a estrela solitária de Chamberlain e o basquete de equipe de Russell.

Na foto, Bill Russell está driblando de costas para a cesta sendo marcado pelo Wilt Chamberlain. Basquete, Coturnos e Canetas: quando jogadores são mais que atletas - Área Restritiva
Foto: Divulgação/NBAE

No entanto, essa rivalidade era limitada às quatro linhas. Fora de quadra, Wilt e Bill eram bons amigos e companheiros na luta pelos direitos civis. Chamberlain se tornaria mais ativo politicamente após o assassinato de Martin Luther King, Jr., e teria uma relação próxima com Richard Nixon, então candidato à presidência dos Estados Unidos.

Bill e Wilt protagonizariam, nas décadas seguintes, alguns dos episódios mais inesquecíveis da NBA, do basquete como um todo e da importância extra-quadra que atletas podem desempenhar. Veremos um pouco mais disso no próximo episódio.

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