Em “Basquete, coturnos e canetas”, viajaremos no tempo para ligar a NBA a eventos históricos dos anos 40 (década da fundação da NBA) até hoje. Da fundação da maior liga de basquete do mundo e Wilt Chamberlain, passando pelo ativismo hippie de Bill Walton, até Enes Kanter e a influência de atletas nos movimentos políticos atuais. No capítulo de hoje: Apresentando os protagonistas da década.

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Os Estados Unidos em 1960

Os cidadãos estadunidenses tinham esperanças de uma década dourada nos anos 60. O novo presidente era o carismático John F. Kennedy, eleito em 1961 com o apoio de brancos e pretos – alguns negros podiam votar desde 1957 quando, sob efeito dos protestos do movimento pelos direitos civis, o então presidente Eisenhower assinou a lei que permitia o voto da comunidade afro-americana.

Martin Luther King, Jr. e outros membros da Montgomery Improvement Association se reunem com o então senador John F. Kennedy

Um dos maiores artistas de todos os tempos, Frank Sinatra tentava se manter no topo enquanto o Rock conquistava jovens do mundo inteiro no ritmo acelerado dos jovens Beatles. O golden boy dos norte-americanos, Elvis Presley, voltava do exército um homem mais maduro e que derreteu corações de milhões de mulheres ao redor do mundo com “Can’t help falling in Love” em 1961.

No mundo dos esportes, o futebol americano tomava o primeiro lugar na vida dos estadunidenses, mas o Beisebol e o Basquete tinham sua cota, assim como os eventos Olímpicos, que tinham maior cobertura televisiva que antes.

Na superfície, tudo apontava para um futuro brilhante, mas uma leve sacudida era o suficiente para perceber que a realidade era outra.

A segregação não havia acabado?

O Movimento pelos direitos civis havia conseguido muitos avanços através de leis e atos no final dos anos 1950, como o direito ao voto, o fim da segregação nos ambientes de trabalho e transporte público, dentre outros. Mas não é do dia para a noite que se muda a mentalidade de toda uma sociedade.

Sim, os negros podiam trabalhar, estudar, ir e vir. Mas tudo era limitado. As escolas eram obrigadas por lei a deixar crianças negras estudarem, mas muitas foram impedidos mesmo assim, vítimas até de agressão física.

Rudy Bridges escoltada por agentes federais na saída da escola. Basquete, coturnos e canetas: Elgin Baylor, Oscar Robertson e os anos 1960 - Área Restritiva
Rudy Bridges escoltada por agentes federais na saída da escola.

Uma das fotos mais icônicas da luta contra o racismo, a imagem acima mostra a pequena Rudy Bridges escoltada por agentes federais para conseguir estudar em uma escola de New Orleans, em 1960. Imagine quantas milhares não tiveram proteção.

Em alguns estados, os brancos usavam todo e qualquer artifício para impedir o voto da comunidade negra; isso suscitaria mais uma onda de protestos na década.

Os negros também podiam trabalhar e até ter status de celebridade. Nina Simone, Sammy Davis Jr., Jimi Hendrix, B. B. King, Nat King Cole são alguns nomes eternizados na memória mundial. Além das celebridades esportivas, claro: Bill Russell, Wilt Chamberlain e Elgin Baylor, na NBA; Willie McCovey e Frank Robinson na MLB; Jim Brown e Deacon Jones na crescente NFL…

Entretanto, as pessoas gostavam apenas dos artistas. Riam das piadas de Davis Jr., apreciavam os talentos musicais de B. B. King e Nina Simone, vibravam com os lances absurdos dos jogadores em quadra e em campo. Mas quando as luzes se apagavam, ignoravam a existência e até agrediam aqueles mesmos a quem ovacionavam minutos antes.

Muitos artistas e jogadores eram impedidos de entrar em hotéis e restaurantes por causa de sua cor, como aconteceu com Bill Russell. Sammy Davis Jr. e B. B. King precisaram do apoio de Frank Sinatra para performar e até mesmo jantar em locais que só brancos podiam entrar. Esses exemplos mostram que não importava quão famoso, quão talentoso, quão importante um negro era; ele ainda era um negro.

A luta por igualdade estava só no começo, muitos progressos e muitas tragédias ainda aconteceriam. Mas o que a NBA tem a ver com isso?

COMO ANDA A NBA?

Os anos 60 na NBA podem ser chamados de anos dourados do Boston Celtics. A franquia liderada por Bill Russell venceu o campeonato nove vezes nesses dez anos. Mas nem só de Boston vive a NBA.

Championships | Boston Celtics
Fonte: NBAE

O Minneapolis Lakers tentava resgatar os tempos de glória e, para isso, buscou novos ares. Bob Short, dono do time, levou a franquia para a cidade dos anjos, tornando-a Los Angeles Lakers. Tinha ainda em seu plantel, Elgin Baylor, draftado em 1958, Novato do ano e All-Star em 1959; além de Jerry West, draftado em 1960, o armador se tornaria a logomarca da NBA anos depois.

Outros times também mudaram de cidade. O Philadelphia Warriors, de Wilt Chamberlain, foi comprado por Franklin Mieuli em 1962 e realocado na Baía de San Francisco, virando o San Francisco Warriors.

O Syracuse Nationals também foi comprado e transferido para a Philadelphia, tornando-se o Philadelphia 76ers. O St. Louis Hawks, depois de anos num impasse envolvendo a arena em que jogava, foi vendido a investidores de Atlanta em 1968, renomeado para Atlanta Hawks.

Ainda em 1960, o Cincinnati Royals (futuro Sacramento Kings) draftou Oscar Robertson. E dentre os oito, nove times que compunham a NBA até 1966, o foco é nestes quatro nomes:

Bill Russell, Wilt Chamberlain, Elgin Baylor e Oscar Robertson.

Se você já leu o capítulo anterior da série (aqui) já relembrou um pouco da história de Bill Russell e Wilt Chamberlain (se ainda não leu, vai lá rapidinho, eu espero), por isso, vamos focar nos dois últimos e como eles se relacionam com a história.

Elgin Baylor

LISTEN: No Michael Jordan Without Elgin Baylor – CBS Local Sports
Elgin Baylor teve a camisa 22 aposentada pelo LA Lakers. Fonte: NBAE/Getty Images, Dick Raphael

Baylor foi a escolha nº 1 do Draft de 1958, Novato do ano, 11 vezes All-Star e 8 vezes finalista com o Lakers, time em que passou toda a sua carreira. Bom nos três principais fundamentos do basquete (arremesso, rebote e assistência), o ala fez história e foi um dos responsáveis pela ressurreição do Lakers e a rivalidade com o Celtics.

Elgin também era militar, ele chegou a ser convocado para servir e só pode jogar com o Lakers nos fins de semana durante a temporada 1961-62. Ele enfrentou o Celtics nas Finais por 7 vezes, mas nunca venceu nenhuma. Apesar disso, Baylor ainda detém um recorde de pontos em Finais da NBA: 61 pontos contra o Celtics; ele ainda levou 22 rebotes e a vitória.

Mesmo nunca tendo vencido um campeonato, Elgin Baylor teve um anel. O Lakers o presenteou com o anel de campeão mesmo ele tendo se aposentado antes do fim da temporada por complicações no joelho (foram várias lesões ao longo dos anos). Baylor é lembrado como um dos maiores nomes da história do basquete e, talvez, por que se impôs quando ainda era um novato.

Em seu primeiro ano na NBA, Baylor viajou com o time para Charleston a fim de jogar contra o Cincinnati Royals. O hotel em que o time se hospedaria impediu a entrada de Baylor e outros companheiros negros, mas Baylor não se calou.

“Eu quero ser tratado como um ser humano. Não sou um animal trancado em uma jaula e solto na hora do show”, Baylor escreveu em seu livro. Após o descaso com o racismo sofrido, Elgin protestou e não jogou contra os Royals. Foi massacrado pela mídia branca, adepta do “Shut up and dribble”, mas a comunidade negra viu nele um novo herói.

Após a aposentadoria, Elgin Baylor ainda trabalhou como técnico e executivo no LA Clippers e se aposentou após 22 anos no time. Ele abriu um processo contra o dono do Clippers e a NBA alegando discriminação, baixo salário e que o racismo foi a causa de sua saída. Atualmente, a ex-estrela tem 85 anos e uma estátua na frente do Staples Center.

Oscar Robertson

Oscar Robertson foi um armador pioneiro em muitos aspectos. Draftado em 1960 pelo Cincinnati Royals, o versátil armador de 1,96 já impressionava pela altura. Naquela época ninguém imaginava um armador com essa altura, e um Ben Simmons, então? O Big-O também foi um Westbrook antes do Westbrook. Robertson foi o primeiro jogador a ter uma média de triplo-duplo na temporada, e fez isso por muito tempo. O recorde de 181 triplos-duplos de Oscar ainda está intocado até hoje.

Oscar facilmente passava dos 30 pontos de média em tempos que a linha de três pontos nem era imaginada. Garçom de primeira, o armador liderou a liga em assistências por seis temporadas.

Legends profile: Oscar Robertson | NBA.com
Fonte: NBAE

Robertson foi apenas o segundo armador a conquistar o título de MVP. Atualmente é comum o prêmio ir para os jogadores do backcourt, mas na época de Robertson só pivôs levavam o prêmio. O Big-O só venceria um campeonato em 1971 ao se unir a Lew Alcindor (Kareem Abdul-Jabbar) no Milwaukee Bucks.

Além de grande jogador em quadra, Robertson fez muito pelo esporte fora dela. Enquanto presidente da Associação de jogadores, contribuiu para mudanças nas regras de Draft e Free-Agency. Sempre envolvido com o ativismo social, Oscar advogou pela legalização da maconha no estado de Ohio e trabalha com projetos em favor da comunidade afro-americana, pois ele mesmo sofreu na pele os males do racismo. Ser parado pela polícia por ser negro, receber ameaças de morte da KKK, ser barrado em hotéis e cidades, tudo isso está na história de Robertson, infelizmente. Mas ele venceu tudo, e com honra.

Oscar Robertson está no Hall da Fama do Basquete, tem camisas aposentadas no Sacramento Kings e Milwaukee Bucks e uma estátua de bronze em Indiana. O prêmio de Jogador do ano da NCAA é nomeado em sua homenagem, além de inúmeros recordes e marcas que nunca foram batidas.

O que vem por aí?

O jogo estava mudando dentro e fora de quadra. Os Estados Unidos passariam por muitas mudanças que jamais passaram pelo imaginário popular no primeiro ano da década. Essas mudanças seriam refletidas no mundo esportivo e seus atletas tomariam parte em vários eventos sociopolíticos.

No próximo capítulo veremos alguns desses eventos e sua ligação com a NBA no final da década de 1960.

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