Árbitra conquista a ascensão profissional e pessoal por meio do basquete

Quem disse que basquete não é coisa de mulher? Hoje, as mulheres tem conquistado posições de destaque no cenário esportivo. Seja como atleta, árbitra, jornalista, empresária ou gestora esportiva, no meio desse cenário, apresentamos para você, Andréia Regina, mulher, atleta, árbitra, empresária e gestora.

Apesar de terem conquistado mais espaço, segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a probabilidade de uma mulher trabalhar equivale a 26%, enquanto o homem 74%. No relatório realizado pelo Programa das Nações Unidas (PNUD), mostra que 90% das pessoas têm alguma forma de preconceito contra mulheres.

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No basquete não é diferente. No quadro de árbitros da Liga Nacional de Basquete (LNB), elas são apenas 18%. Nessa luta por espaço, conhecemos a árbitra Andreia Regina, figura presente nas principais ligas nacionais. Mas, você sabe que ela enfrentou tabus e preconceitos para se destacar?!

Andreia Regina é a primeira mulher com licença black para arbitrar qualquer jogo masculino que seja organizado pela FIBA (Federação Internacional de Basquete), também árbitra na FPB, LBF e NBB.

A árbitra lutou muito para chegar onde está hoje. Natural de Bauru, jogou basquete na adolescência e com o tempo decidiu continuar na modalidade como árbitra. Veio para São Paulo atrás de um sonho, o curso de arbitragem. 

Para chegar lá, Andreia passou por maus bocados. Em São Paulo, teve que lidar contra impasses  financeiros  e chegou a passar fome enquanto lutava para se firmar na profissão.

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Até  pensou em desistir algumas vezes, mas, contou com o incentivo da avó, que jamais deixou que a neta desistisse do sonho. “Ela me disse ‘não quero uma neta fracassada, você vai ficar e vencer em nome de Deus’, com essas palavras acreditei em mim novamente”. Mesmo tendo sido despejada por conhecidas, sem ter onde ficar, Andrea lutou e deu a volta por cima. 

Com muito esforço e privações as recompensa surgiram. Em 18 anos de carreira, apitou as finais da LBF e participou de inúmeros torneios internacionais como árbitra da FIBA. O respeito dentro e fora de quadra, veio somente após superar muito preconceito.

Hoje, além de árbitra, também é proprietária da empresa AR Sport, uma empresa especializada em arbitragem. A empresa administra e gerencia eventos de basquete dentro do estado de São Paulo.

Andreia Regina conversou conosco sobre arbitragem, mulheres no esporte, planos de carreira e muito mais. Confira o bate-papo abaixo:

Área Restritiva: Andreia, quando e como o basquete surgiu na sua vida?

Andreia Regina: Eu jogava basquete em Bauru, o time de Bauru acabou e eu queria ficar no meio do basquete. Eu vi numa revista que ia ter um curso em 1999 ou 2000 não me recordo, de arbitragem de basquete. E eu fui fazer esse curso em Mogi das Cruzes.

ÁR: Primeira mulher com licença black da FIBA. Como foi o caminho para chegar a ser uma árbitra internacional?

Andreia: Eu era árbitra nacional, juntamente com a Fatima Aparecida, fomos as duas primeiras mulheres a apitar o campeonato nacional. Sr. Geraldo Miguel Fontana era o diretor, hoje, o diretor da FIBA América de arbitragem. Teve uma clínica para Internacional e eu fui indicada por ele.

Em 2011, passei como internacional e começaram os desafios. Sr. Geraldo veio me dando oportunidades com muita cobrança e profissionalismo. Exigia de mim uma qualidade técnica, uma preparação física e conhecimento de regras na mesma proporção que um homem tinha que ter, até mais. Porque ele sempre foi um apaixonado pela arbitragem feminina e hoje na América existem muitas mulheres apitando por causa dele.

Eu comecei a ter oportunidades em jogos da Liga Sul-Americana, Copa América, Eliminatórias para o mundial, pré-olímpico, enfim competições masculina. Eu apito muitos jogos masculino .Meu teste físico é o mesmo passado aos homens.

Na licença Black, eu tinha que ter uma preparação física tão boa ou até melhor, porque o fato de ser mulher infelizmente faz com que tenha uma certa desconfiança. Tinham né, porque hoje eu sou mundialmente conhecida e respeitada devido ao meu trabalho. Apito vários campeonatos masculinos sendo árbitra principal em diversos jogos fora do país.

Hoje eu conquistei respeito na minha profissão. Não posso descansar em nenhum momento, eu tenho que estar sempre pronta, porque a qualquer momento eu posso receber uma convocação. Às vezes eu quero comer uma pizza e não posso. Ás vezes quero fazer outra coisa e não posso. Porque a vida de um árbitro profissional é tão difícil quanto a vida de um atleta de alto nível profissional, a arbitragem hoje é algo muito sério.

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ÁR: Após a licença black, quebrou uma nova barreira, se tornando a primeira árbitra a comentar um jogo da NBA na ESPN. E neste ano, integrou o primeiro trio de arbitragem formado por mulheres do NBB, no Dia Da Mulher. Como foi as experiências? 

Andreia: Sim, eu comentei com os meninos da ESPN um jogo da NBA, e eles foram fantásticos, carinhosos e atenciosos comigo. Três mulheres apitando um jogo masculino, foi legal e emocionante. Mas acho que nós temos condições de apitar um jogo masculino o tempo inteiro, três mulheres juntas ou somente duas. Foi uma convocação de uma data comemorativa. 

Não sei se vai ter continuidade ou foi somente algo para a comemoração. Nós comentamos no vestiário que ficaríamos muito mais felizes se essa convocação não tivesse nada a ver com uma data comemorativa. Porque no dia 8 de março, nós temos condição de apitar em outro dia, não? As mulheres podem trabalhar igual aos homens, não só em datas comemorativas, mas o ano todo.

ÁR: Apita jogos masculinos, femininos e categoria de base. Sua atuação é diferente em cada situação?

Andreia: Um árbitro de alto nível e profissional trabalha com a mesma seriedade e respeito com os atletas. Mas os jogos são diferentes. O jogo masculino são mais rápidos e existem situações de interferência no nível do aro, o feminino têm bastante contato físico e muito arremesso de fora, e com a base temos quer ser mais educativos, porém, aplicar a regra e explicar o que os atletas erraram.

ÁR: Dentre tantos jogos arbitrados, consegue escolher uma partida inesquecível?

Andreia: A primeira vez que apitei uma final internacional masculina, a Liga Sul-americana de clubes. Um time da Argentina contra uma equipe da Venezuela. Sentia o chão tremer de tanta torcida. E a torcida dizia que arbitragem iria morrer, o ginásio cheio, chão tremendo. Nunca vou esquecer.

ÁR: Além de árbitra internacional, você também é proprietária da empresa AR Sports, especializada em arbitragem. Como funciona sua empresa?

Andreia: A empresa gerencia jogos escolares. Somos uma empresa pedagógica onde não só aplicamos as regras, como explicamos também. A empresa existe a quatro anos, gerenciamos vários eventos. Alguns árbitros fazem parte do quadro da federação e, outros são de outros lugares. Passam a disponibilidade para mim e eu escalo. 

ÁR: Entre competições, estudos e a administração da empresa, você tem mais alguém a frente da AR Sports?

Andreia: Sim, mas não deu certo. Hoje em dia é difícil ter pessoas que sejam realmente honestas e que estejam pensando coletivamente. Pois se eu ganho o outro também. Mas hoje eu sou a responsável total por escalar, fechar contratos e pagamentos dos árbitros.

ÁR: Andreia, com sua história e vivência como árbitra, como enxerga a participação feminina na arbitragem?  

Andreia: Pequena, poderíamos ser mais e temos capacidade. No Brasil temos cinco árbitras, muito pouco para uma liga Nacional. Na Argentina poucas mulheres também, e na Europa nenhuma apitando jogos masculinos. 

Mas também entendo que as mulheres precisam assumir responsabilidades e estar prontas fisicamente e tecnicamente. É o nosso dever, se tendo isso já é difícil, imagina quando não tem.

ÁR: Andreia, já ocorreu alguma situação de assédio/preconceito com você ou colega?

Andreia: Assédio não, preconceito somente no início, devido o meio machista, mas depois de um tempo não ocorreu mais. No início tinha preconceito de todos, tenho 22 anos de arbitragem e o início não foi fácil. Hoje dos colegas de profissão não existe mais. Para as árbitras iniciantes existe o preconceito de equipes, torcidas e comissão técnica. O duro é quando escutamos de uma mulher ” vai lavar louça”. Ao invés dela estar vibrando por uma mulher estar fazendo algo diferente, rompendo barreiras. Mas a torcedora tem preconceito, triste isso.

ÁR: Para finalizar, quais os próximos planos de carreira e vida? 

Andreia: Estou abrindo outra empresa em marketing digital e sou mentora. Estou me preparando para dar mentoria na área de esportes no que se refere a foco e determinação. Terminei um curso agora da Global mentoring e vou tirar um certificado internacional.

Solidificar a minha vida no empreendedorismo, ter as minhas empresas, estou me apaixonando pelo lado executivo. Apitar no máximo mais cinco anos se Deus permitir. Não tenho mais como crescer como árbitra, cheguei onde muitos tentam e não conseguem, agora quero algo novo. Só faltava uma olimpíadas, mas isso para mim talvez não seja mais tão importante.

Quero mais tempo para mim e com a minha família. Um bom árbitro não gerencia somente dentro da quadra, mas a sua vida profissional fora das quadras também. Trabalhar com mentoria esportiva será um grande desafio. E estou conquistando um novo sonho também, vou lançar um e-book chamado Ansiedade. 

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