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Alana Ambrósio, do rádio para a TV. Das reportagens na CBN para os comentários na ESPN

Alana Ambrósio, levou a experiência da rádio para os comentários e mesas redondas esportivas na TV. Área Restritiva

Jornalista diz que, há espaços a serem preenchidos por mulheres no jornalismo esportivo

As mulheres lutam pela igualdade há tempos, apesar de bem-sucedidas em alguns casos, a longa batalha por espaço e reconhecimento ainda continua. As mulheres que produzem conteúdo esportivo enfrentam preconceito, machismo, descrença e ironia. 

Nunca foi moleza ser mulher no esporte. No basquete nacional, temos algumas mulheres abrindo espaço para que outras mulheres também possam se destacar – seja como técnica, atleta, gestora ou jornalista. Com ênfase na diversidade e o apoio ativo mútuo entre as mulheres desempenham um papel fundamental para a equidade.

Alana Ambrósio, comentarista, repórter e apresentadora dos canais ESPN exemplifica e inspira a abertura de mais mulheres comentando, escrevendo e falando sobre basquetebol. Filha de jornalistas, Alana contestava seguir o mesmo caminho de seus pais. Aos 16 anos, deixava de lado todas as dúvidas escolhendo a comunicação para dar “pitacos, matraquear e contar histórias”. 

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Após a escolha da profissão, veio a descoberta de uma nova paixão, a NBA. Na sala de casa, ao lado do pai, acompanhava sua primeira partida na TV, Chicago Bulls e Boston Celtics pelos playoffs de 2009. Onde Chicago venceu por 128 a 127 depois de três prorrogações. Dali em diante, iniciava a relação que conhecemos hoje.

Habituada a acompanhar a NBA por diversão, Alana virou uma especialista no assunto, sendo convidada em algumas oportunidades para comentar sobre, no ESPN League. Em 2017, entrou no ar como comentarista fixa do programa. 

Entre a rádio e a TV, era primeira vez que Alana sairia oficialmente da rotina de repórter da CBN para falar daquilo que mais ama, o basquete. Conquistando inúmeras oportunidades como ter seu próprio programa  o “Cestou”, e apresentar um dos programas esportivos mais tradicionais da ESPN: o SportsCenter.

A jornalista motivada por desafios, integrará a equipe de transmissão da NBA Brasil, em iniciativa inédita no Brasil. A única mulher entre os oito profissionais selecionados, bateu um papo conosco sobre mulher no jornalismo esportivo, transições em sua carreira, e muitos mais: 

Área Restritiva: Como surgiu a paixão pela NBA, e o interesse pelo jornalismo?

Alana Ambrosio: Bom, como filha de dois jornalistas, eu tive  contato com a profissão desde muito cedo. Via meus pais trabalhando, acompanhava as dificuldades, os desafios e as partes bonitas da profissão. Então, meu contato sempre foi muito íntimo, eu sempre curti muito escrever, fui a típica pessoa de humanas, tinha interesse pelas palavras e pelas causas sociais. Quando eu tinha 16 anos, decidi que eu queria ser jornalista, apesar de passar bastante tempo pensando em fazer direito ou arquitetura. No fim das contas, eu acabei seguindo os passos dos meus pais.

O esporte sempre fez parte da minha vida, independentemente da modalidade eu sempre adorei assistir e acompanhar, sempre foi um programa de pai e filha que eu cultivava muito. Adorava ir no estádio com meu pai, de acompanhar jogos com ele, e com a popularização da NBA, e o aumento das transmissões em 2009, comecei de fato à acompanhar a modalidade. E também começou como um programa de pai e filha, pois quando eu chegava da faculdade ou do estágio a noite, acompanhava os jogos junto com meu pai.

ÁR: Sua estreia na ESPN, marcou sua estreia na TV também. Como foi essa transição, rolou nervosismo de encarar as câmeras, as mudanças e os fãs de esportes tendo mais conhecimento sobre o seu trabalho?

Alana: Eu costumo falar e ouvir que quem faz rádio, faz tudo… porque no rádio você é muito independente e livre para produzir o conteúdo da forma que você achar adequado. Eu como repórter de rua, com um celular, conseguia fazer tudo e falar sobre os mais diversos assuntos. 

Então, essa história de organizar mentalmente tópicos sobre os quais eu queria falar, sobre estar acostumada a trabalhar reportando, e muitas vezes sobre pressão, isso sempre fez parte do meu dia a dia conforme eu fui trabalhando na reportagem. Eu trabalhei cinco anos na reportagem da Rádio CBN, o que  me deu bastante bagagem para me sentir confortável na hora de expressar minha opinião ou contar o desenrolar dos fatos.

Digamos que foi relativamente simples eu no caso, juntar a imagem à voz, o processo inverso definitivamente seria mais difícil. Sou muito grata por ter me formado na escola do rádio e ter conseguido me sentir confortável com as minhas próprias ideias para poder transmitir clareza e reportar o que é preciso.

Alana Ambrósio, na ESPN participou de diversos programas e quadros da emissora.
Arquivo pessoal

ÁR: No ano passado, cobriu a Copa do Mundo da China. Como foi respirar o mundial e teve alguma história engraçada ou marcante entrevistando alguém?

Alana: Cobrir o mundial de basquete na China foi a experiência de trabalho mais legal que realizei. Foi bem intenso. E com muitos perrengues, claro. Meu tripé quebrou, e quando a gente fala de jogador de basquete, a gente tava falando de cara de 2 metros pra cima. Então quando quebrou o tripé, estava na correria, se eu não me engano tinha sido logo depois do jogo contra a Grécia. Em que o Brasil acabou vencendo por um ponto e meu tripé lá travado (risos).

No meu primeiro dia, já tinha um treino da seleção do Estados Unidos e eu fiz um teste antes de gravar. Deu tudo que podia dar errado. Mas, tudo se resolveu.  Tem uma atmosfera muito diferente, ainda mais quando se cobre um grupo; e o melhor: o do Brasil. Facilita, quando você acompanha algo que já se tem uma intimidade. Você sabe o que está acontecendo nos bastidores.

Não é qualquer momento, que você consegue entrevistar e ganhar a confiança de Gregg Popovich, certo?

Aprendi muito e tive grandes feitos, dentre eles, ter entrevistado o técnico da seleção dos Estados Unidos, Greg Popovich.

Eu fui lá e fiz minha pergunta. Ele respondeu, não me deu nenhuma patada. Alguns dias depois, quando o Brasil enfrentou os Estados Unidos, eu fiz uma pergunta pra ele, e foi uma pergunta contextualizada digamos assim. Eu expliquei uma situação, apontei uns números e fiz minha pergunta, e daí ele respondeu assim pra mim: “Bom, eu vou tentar fazer com que minha resposta seja tão longa quanto a sua pergunta“, e aí eu entendi o que é para os jornalistas americanos cobrirem diariamente ou semanalmente Greg Popovich. Uma figura que você não sabe direito o que esperar, mas que definitivamente vai dar boas respostas que irão render boas histórias. 

ÁR: O Cestou é um programa que sempre se reinventa, com notícias e entrevistas com grandes personalidades do basquete brasileiro. Como o Cestou nasceu?

Alana: O Cestou passou de uma reformulação do NBA Countdown, especialmente porque queríamos falar também de basquete nacional. Foi uma ideia do antigo coordenador de basquete da ESPN, Gustavo Ernesto, e quando me procurou, ele falou: “Olha, a gente quer um programa que seja informativo, mas que seja mais descontraído. Tenha uma pegada até de internet, que é um negócio mais leve, não muito formal, que você consegue ter uma certa intimidade com quem tá lá“. 

Fizemos muitos experimentos, antes era com convidados, depois tiramos os convidados, depois colocamos eles novamente, foi um grande experimento (risos). E é isso que você falou, ele não tem uma fórmula fixa, não tem uma linha de “Ah, vamos entrevistar só pessoas presencialmente ou vamos entrevistar só jogadores do NBB“. Engloba tudo, já entrevistamos jogadores da NBA, da Espanha, atletas da seleção, técnicos, enfim, figuras que amam o basquete e estão ligadas diretamente ao esporte. 

E é um desafio porque pensar nesse programa da forma que ele é, acaba fazendo com que você repense as formas de se produzir conteúdo. É interessante pro público saber sobre aquela pessoa que está perto de mim, e que está contando suas histórias. Então achar essa dosagem entre carreira, vida pessoal, coisas que muitas pessoas não sabem e a gente também não, e vai descobrindo enquanto vai fazendo a entrevista é muito legal.

ÁR: Dentre diversas entrevistas, qual delas diria que é a mais marcante?

Eu não consigo escolher uma entrevista que tenha me marcado mais, porque são tantas, mas uma que repercutiu bastante foi a entrevista com a Rachel Nichols que foi esse ano.

Foi um programa para o dia das mulheres, um pouquinho antes da pandemia, e ela pra mim é a personificação de uma mulher forte ligada ao mundo dos esportes, que faz um trabalho maravilhoso. Então, entrevista-la teve essa carga emocional pra mim, foi algo que repercutiu bem. Ela é muito fofa, simpática, por isso é uma entrevista que pessoalmente falando, eu gostei muito de fazer.

ÁR: No Brasil, o jornalismo esportivo parece ser a última fronteira de afirmação da competência feminina. Dia após dia as mulheres precisam provar a todo instante que têm competência para falar de Basquete ou qualquer outra modalidade. Hoje, está numa posição que todos conhecem seu trabalho e te respeitam. Mas, como foi no começo? 

Alana: O começo foi de muita pressão, sobre tudo, de mim mesma em relação ao trabalho que eu fazia. Porque eu entendia que a plataforma que eu estava tendo seria muito grande e poderia ajudar a inteirar outras mulheres em relação ao esporte. Poderia de certa forma abrir caminhos, é o que eu espero que esteja acontecendo. Mas a gente é muito cobrada como mulher na sociedade, o papel de gênero da mulher é muito bem definido na nossa sociedade patriarcal. Então essa cobrança, essa carga mental que a gente acaba depositando sobre nós mesmas pesa bastante, especialmente quando está  começando a fazer alguma coisa desafiadora ou que bata de frente com o que tá vigente né?!

Mas as transformações só vem a partir daí, acho que essas cobranças com o tempo foram dando espaço as recompensas, aos frutos que a gente vai colhendo e vendo que é o retorno do público, retorno de quem acompanha o basquete, retorno de quem gosta do esporte. Então, isso foi me acalmando, e me assegurando de que o caminho é longo mas está sendo trilhado por muitas mulheres, e agora me incluo nessa de forma muito bonita e unida. 

ÁR: Alana, o machismo e assédio moral/sexual na área da comunicação não é novidade, e no jornalismo esportivo, a situação não é diferente. Já ocorreu algum episódio com você e como lidar com a discriminação no ambiente de trabalho?

Alana: Eu acho que o machismo às vezes consegue ser muito velado, às vezes não é um negócio escancarado, que vem numa frase ou numa atitude necessariamente luante. Aquele negócio gritante que você fala que aconteceu mesmo, mas vem talvez de alguns pequenos comentários que não necessariamente carregam uma maldade, uma vontade de te machucar, mas acabam vindo como um reflexo da nossa sociedade. Então, perceber a forma como isso se desenvolvia, porque como eu falei, eu fiz essa transição do jornalismo tradicional, que é um ambiente que tem bastante mulheres, para o esporte, que é um ambiente ainda mais fechado.

Mas é um teste de resiliência né?! E também não só um teste, é  como um sentimento de obrigação de explicar porque determinado comentário ou determinada fala acabou incomodando. Porque a gente pode também sempre tentar fazer com que as pessoas entendam o porque que elas agiram daquela forma, e porque isso não é legal especialmente com mulheres em um ambiente restrito que é o ambiente esportivo. 

Eu não diria que é o único que ainda tem barreiras, mas com certeza ainda as tem. E sobre casos de assédio ou de situações que eu tenho que me provar, isso não acontece só no jornalismo e não vai acabar por agora, o importante é a gente saber identificar os nossos desconfortos, entender o porque eles acontecem e não permitir que eles se repitam. Isso também vai contribuir para que cada vez mais, assim como hoje para nós, é muito mais comum, e  muito mais usual ver mulheres aparecendo e falando de esportes para as próximas gerações. Eu tenho esperança e acredito que vá ser muito melhor. Assim como hoje, a gente já está muito melhor do que alguns anos atrás.

Se tem NBA, tem Alana Ambrósio. A apresentadora também marcou presença na transmissão da NBA na NBA House.
Arquivo pessoal

ÁR: Temos a questão do basquete no país do futebol, mas vemos como o público aumentou, principalmente o feminino. As mulheres estão acompanhando os jogos,  escrevendo em portais/blogs, comentando no twitter e podcasters. E você acompanhou essa evolução, para você, como se enxerga sendo um exemplo para essas mulheres? 

Alana: Para mim, é um prazer e uma honra ver como existe mesmo uma rede de mulheres que gostam de basquete e falam sobre esportes aqui no Brasil. Que se acolhem quando o assunto é o esporte que amam, isso é muito legal. Eu tenho um grupo que deve ter umas 100 meninas de várias partes do Brasil. De várias idades, adolescentes e mulheres que tem mais de 40 anos, e é muito legal ver essa interação e ver como cada coisinha que uma faz, acaba repercutindo e influenciando de certa forma a vida dessas mulheres. 

Vira e mexe alguém escreve algum texto, ou eu apareço  na TV, ou alguém participa de alguma live pra falar de basquete, e sempre tem uma repercussão muito legal. Então, pra mim é ótimo ter essa rede de apoio de amigas,  de mulheres que entendem o que é ser mulher no ambiente do esporte, e o que é ser apaixonada por basquete no país do futebol.

ÁR: Na ESPN teve grandes desafios que realizou com sucesso. Como foi o desafio de apresentar o SportsCenter? Quem sabe futuramente um novo desafio, cobrir as finais da NBA in loco talvez? 

Alana: Cobrir as finais da NBA, definitivamente, está nos meus planos. É uma meta profissional, que infelizmente esse ano o coronavírus atrapalhou. Mas é doido pensar no caminho até aqui nesses anos todos de carreira, e como hoje eu desempenho funções que eu acho que nunca pensei que eu desempenharia, e como isso tem aberto portas para continuar a realizar sonhos. Porque é como eu falei, o esporte não estava nos meus planos principais, e de repente virou não só algo que eu sou apaixonada, mas o meu trabalho, então quero sim cobrir as finais da NBA. 

O Sportcenter foi um grande desafio também, é um programa que eu acompanho a minha vida inteira literalmente. É muito mais difícil do que parece, e ao mesmo tempo a recompensa e a sensação de dever cumprido é muito bom, então que venha os novos desafios. Talvez em novos formatos, seja como for, estamos aqui pra isso.

ÁR: Alana para finalizar, qual mensagem ou um conselho gostaria de passar para as mulheres que gostam de basquete e que amam falar sobre a modalidade? 

Alana: O conselho é: ocupem os espaços. Agora com a internet, a gente consegue escrever em blog, gravar podcast, gravar vídeo pro YouTube, usar o Twitter para se comunicar, entrar em contato até com os jogadores. Saber o que eles estão fazendo, ver pelas redes deles, quais são os comportamentos. 

Então há  muitas ferramentas, e talvez a porta de entrada não esteja escancarada, e a gente precisa cada vez mais empurrar, fazer essa forçinha para continuar abrindo essas portas por nós e para as próximas mulheres que vierem. É um caminho que não é fácil de se trilhar, não necessariamente é bonito porque às vezes a gente passa por algumas situações desconfortáveis e desagradáveis e que causam frustração, raiva e tristeza. 

Mas ocupar espaço é dizer: “Nós estamos aqui e não vamos a lugar nenhum, então acostumem-se“. E a forma que a gente faz isso mostrando, talvez não nosso trabalho, mas nosso interesse, nosso amor pelo basquete, o nosso conhecimento e nosso lugar como mulheres no ambiente do esporte, que é um lugar de fala extremamente válido.

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